Apontamentos sobre "Que Fazer?"
Resumo
Análise de "Que Fazer?" de Lénine, abordando economismo, vanguarda e partido, consciência de classe e consciência política, organização partidária, clandestinidade, o jornal, alianças e frente unida e popular, no contexto do Império Russo e da atualidade.
Isto serve mais como apontamentos para mim mesmo. Incluí notas, reflexões e
comentários pessoais. Posso-me navegar pelos cabeçalhos e/ou com
Ctrl +
Que Fazer? Problemas Candentes do Nosso Movimento de Vladimir Ilitch Ulianov “Lénine”, obra com mais de 120 anos (), surgiu com a separação do Partido Operário Social-Democrata Russo, que deu origem aos Большевики́ (membros da maioria) e aos Меньшевики (membros da minoria). O texto foi escrito numa altura em que 90 % da população russa era camponesa.
O regime Czarista era repressor, e já existia uma burguesia que o suportava, embora o capitalismo na Rússia era atrasado. Ainda existia servidão e fidalguia, mas também já existia presença de capital (belga, sueco, francês, alemão, inglês, estadunidense americano, etc.).
Naquela época, social-democracia e comunismo eram basicamente sinónimos. A social-democracia de hoje nada tem a ver com a que Lénine defendia neste panfleto.
Foi o desenvolvimento do artigo Por Onde Começar?, também
escrito por ele, no jornal clandestino Iskra (Centelha), onde já
dava a ideia de um
esboço de um
plano
que dizia
que modo
é que o partido tinha de dar os
passos
práticos
, acabando com
a tendência
“economicista”
e
a tendência
do ecletismo sem princípios
.
Karl Liebknecht, social-democrata alemão, disse uma vez que
se as
circunstâncias transformam-se em vinte e quatro horas, é preciso modificar a
tática em vinte e quatro horas
. Esta frase não deve ser usada como desculpa
para não
trabalhar
por criar uma organização combativa e realizar uma agitação política em qualquer
situação, em períodos “cinzentos, pacíficos”, em períodos de “declínio do
espírito revolucionário”, quando ao contrário, exatamente nessas situações e
nesses períodos é particularmente necessário esse trabalho, porque nos momentos
de explosões sociais não há tempo hábil para criar uma organização, que nesses
momentos já deve estar pronta para poder desenvolver imediatamente sua
atividade.
A atividade do partido deve se basear:
- na
fundação de um jornal político
paracoordenar sistematicamente a propaganda e a agitação multiformes e consequentes
de todo o proletariado.Se não sabemos e em quanto não soubermos unificar a nossa influência sobre o povo e o governo mediante a palavra impressa, será utopia pensar poder unificar outros meios de influência mais complexos, mais difíceis e a curto prazo mais decisivos
; - no
despertar em todos os estratos do povo mais ou menos consciente a paixão pela denúncia política
, usando o jornal comouma tribuna da qual todo o povo possa denunciar o governo
; - no uso do jornal como
um organizador coletivo.
Um jornal […] não tem somente a função de difundir ideias, de educar politicamente e de conquistar aliados políticos. O jornal não é somente um propagandista e agitador coletivo
.
Já existiam vários grupos espalhados pela Rússia que se referenciavam ao Marxismo. O jornal para toda a Rússia uniria esses grupos. Embora uns não concordassem com o partido.
No texto, quando ele fala do jornal, ele específica que ele é
para toda a
Rússia
. Talvez naquele momento da História (e no local também), e para a
tarefa de acabar com a autocracia do Império Russo, isso fizesse sentido, mas
hoje em dia, os impérios são outros. Dependerá bastante da situação, mas jornais
como este, agora, não têm necessidade de se conter num único só país muitas das
vezes. Fará sentido múltiplos jornais, um para cada país da UE, ou um só jornal
(com as traduções necessárias) para todos os países, por exemplo? Portugal não é
um império, mas a UE já o é. E uma organização de vanguarda europeia teria
infinitas vezes mais valor de que uma vanguarda nacional. Quanto mais lugares a
vanguarda alcançar, melhor. É
necessário
deslocar um pouco o centro de gravidade para o trabalho à escala
mundial.
… A Comuna de Paris de 1871 deu um vislumbre do que a classe trabalhadora poderia alcançar e como poderia gerir a sociedade por si mesma. Mas após 72 dias a Comuna foi esmagada pelo governo burguês de Thiers apoiado pelo poder internacional da classe capitalista. Confinada a uma única cidade, foi isolada e derrotada com 20.000 trabalhadores parisienses massacrados a sangue-frio numa única semana em maio de 1871. Em resposta, os Communards dispararam contra os reféns burgueses. O número de vítimas de classe dominante da Comuna era de 84. Assim, é sempre que o terror branco da classe dominante supera em números e horrores o terror vermelho da classe trabalhadora. Como Marx observou, o problema da Comuna era que estava isolada para uma única cidade. O problema do proletariado russo era que a sua revolução estava isolada para um único país.
A Revolução Russa de outubro de 1917 continua a ser a única ocasião na história em que um contingente de trabalhadores derrubou realmente o poder do Estado capitalista sobre um território inteiro. Por esta razão continuamos a examinar e a tentar entendê-la…
[…]
… O declínio da revolução demonstram, no entanto, é a necessidade de que esse partido seja internacional e centralizado antes do surto revolucionário.
— Communist Workers’ Organisation, traduzido via LibreTranslate
Para mais contexto sobre a História da Rússia antes e durante a revolução, Bes D. Marx está a fazer uma série de vídeos sobre o assunto em ordem cronológica, muito bons.
Ainda não foi disponibilizada uma playlist para a série The October Revolution, que ainda está por completar:
- The Most Dangerous History They Don’t Want You to Know;
- Lenin’s Formula for Revolution (And Why It Worked);
- The Secret Beginnings of the Bolsheviks: From Reading Circles to Revolution;
A tarefa da social-democracia consistia em «dirigir todas as manifestações de luta do proletariado contra todas as formas de opressão política, económica, e social»
Prefácio
Economismo: corrente oportunista, surgida entre uma parte dos sociais-democratas russos na segunda metade dos anos 90 do século passado []. Os «economistas» afirmavam que a tarefa do movimento operário consistia unicamente na luta económica pela melhoria da situação dos operários, isto é, redução da jornada de trabalho, aumento do salário, etc. Quanto à luta política contra o tsarismo, os «economistas» consideravam que devia ser travada pela burguesia liberal e não pelos operários. Os «economistas» opunham-se à criação do partido político independente da classe operária, negando o valor da teoria revolucionária para o movimento operário, rejeitando a propaganda das ideias do socialismo.
Dogmatismo e «Liberdade de Crítica»
Que significa a «liberdade de crítica»?
Na
social-democracia internacional contemporânea se formaram duas tendências
.
Até esta altura, social-democracia ainda era sinónimo de comunismo. A luta operária alemã era associada a esse nome, ainda Marx e Engels eram vivos, e por isso usaram social-democracia no nome do partido alemão ideologicamente comunista, de que Engels fez parte.
Mas num futuro próximo, isso iria mudar, uma vez que o significado
transformara-se
de
partido da revolução social num partido democrático de reformas sociais
,
da
social-democracia revolucionária para o social-reformismo burguês
.
Reivindicação política apoiada por Eduard Bernstein que:
- negou
a possibilidade de fundamentar cientificamente o socialismo e de demonstrar do ponto de vista da concepção materialista da história a sua necessidade e a sua inevitabilidade;
- negou
o facto da miséria crescente, da proletarização e da exacerbação das contradições capitalistas;
- declarou
inconsistente a própria concepção do objectivo final e rejeitada categoricamente a ideia da ditadura do proletariado;
- negou
a oposição de princípio entre o liberalismo e o socialismo;
- negou
a teoria da luta de classes, por pretensamente não ser aplicável a uma sociedade estritamente democrática, governada de acordo com a vontade da maioria
; - …
França de Alexandre Millerand (Millerandismo) aplicou o
bernsteinianismo
prático
—
as
condições políticas da França, mais desenvolvidas no sentido democrático,
permitiu.
As consequências foram:
- ministros socialistas com
discursos sobre a colaboração das classes
; - eles a
conservar a sua pasta, mesmo depois dos assassínios de operários pelos gendarmes terem mostrado, pela centésima e a milésima vez, o verdadeiro carácter da colaboração democrática das classes
; - a
participar pessoalmente na felicitação do tsar, a quem os socialistas franceses outro nome não dão agora do que o de herói do knouteur, pendeur et déportateur
; corrupção da consciência socialista das massas operárias — a única base que nos pode assegurar a vitória
;pomposos projectos de reformas miseráveis, tão miseráveis, que se tinha conseguido obter mais dos governos burgueses!
Críticos russos ou marxistas legais, eram
intelectuais da liberal burguesia russa que,
apresentando-se
como partidários do marxismo, escolheram da doutrina de Marx unicamente a sua
teoria sobre a inevitabilidade da substituição da formação socioeconómica feudal
pela capitalista.
Corrompiam
a consciência socialista aviltando o marxismo, pregando a teoria da atenuação
das contradições sociais, proclamando que é absurda a ideia da revolução social
e da ditadura do proletariado, reduzindo o movimento operário e a luta de
classes a um trade-unionismo estreito e à luta “realista” por reformas pequenas
e graduais.
«Liberdade de crítica» é a liberdade da tendência oportunista no seio da social-democracia, a liberdade de transformar esta última num partido democrático de reformas, a liberdade de introduzir no socialismo ideias burguesas e elementos burgueses.
A crítica na Rússia
A resposta dos sociais-democratas práticos russos para os críticos foi
a
tendência política fundamental do “economismo”: que os operários travem a luta
económica (ou mais exactamente: a luta trade-unionista, porque esta abrange
também a política especificamente operária) e que a intelectualidade marxista se
funda com os liberais para a “luta” política.
Tanto os marxistas legais, quanto os economistas,
querem
manter aquilo que existe:
-
os “críticos” querem continuar a ser considerados como marxistas e que se lhes assegure a “liberdade de crítica” de que gozavam em todos os sentidos
; -
os “economistas” querem que
:os revolucionários reconheçam “a plenitude de direitos do movimento no presente”, isto é a “legitimidade” da existência do que existe;
os “ideólogos” não procurem “desviar” o movimento do caminho “determinado pela interacção dos elementos materiais e do meio material”;
se reconheça como desejável travar a luta “que é possível para os operários nas circunstâncias presentes” e, como possível, a luta “que travam realmente no momento presente”.
A Lénine e os sociais-democratas revolucionários, desagradam o
culto
da espontaneidade, quer dizer, do que existe “no momento presente”
.
Engels sobre a importância da luta teórica
Os críticos têm como inimigos
“dogmatismo,
doutrinarismo”, “ossificação do partido, castigo inevitável do espartilhamento
violento do pensamento”
.
A famosa liberdade de crítica não implica a substituição de uma teoria por outra, mas a liberdade de prescindir de toda a teoria coerente e reflectida, significa eclectismo e falta de princípios.
Sem
teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário.
Para os sociais-democratas russos — um partido acabado de se formar — é
importante ter atenção de que:
Da consolidação [com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam desviar o movimento do caminho correcto] pode depender o futuro da social-democracia russa por muito longos anos
;O movimento social-democrata é, pela sua própria natureza, internacional.
Devecombater o chauvinismo nacional
e deveassumir uma atitude crítica perante [a experiência de outros países] e comprová-la por si próprio
;só um partido guiado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda
, paralibertar todo o povo do jugo da autocracia.
A teoria de vanguarda serve quando não existe autocracia?
Do prefácio do livro Der deutsche Bauernkrieg de Friedrich Engels:
… A luta é conduzida metodicamente nas suas três direcções, coordenadas e ligadas entre si: teórica, política e económico-prática (resistência aos capitalistas).
[…]
… O socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser tratado como uma ciência, isto é, ser estudado. A consciência assim alcançada e cada vez mais lúcida deve ser difundida entre as massas operárias com zelo cada vez maior, deve consolidar-se cada vez mais fortemente a organização do partido e a dos sindicatos…
A Espontaneidade das Massas e a Consciência da Social-Democracia
Existe ainda outro
desacordo
geral
entre a metodologia teórica e política de Lénine e a dos outros
sociais-democratas russos: a
apreciação
diferente da importância relativa do elemento espontâneo e do elemento
conscientemente “metódico”.
Rabótcheie Dielo (A Causa Operária) acusa Lénine de
subestimar
a importância do elemento objectivo ou espontâneo do desenvolvimento.
Começo do ascenso espontâneo
Lénine considera que quando falamos de
elemento
espontâneo
, isso refere-se ao movimento grevista trade-unionista:
assinalavam
o despertar do antagonismo entre os operários e os patrões, mas os operários não
tinham, nem podiam ter, a consciência da oposição irreconciliável entre os seus
interesses e todo o regime político e social existente
. Dá como exemplo a
famosa
guerra industrial de 1896, em Petersburgo
. As greves anteriores a essa
teriam sido apenas
motins,
e fazem as greves mais recentes parecerem
conscientes,
embora sejam apenas
a
forma embrionária do consciente.
Os operários perdiam a fé tradicional na inamovibilidade do regime que os oprimia; começavam… não direi a compreender, mas a sentir a necessidade de uma resistência colectiva e rompiam resolutamente com a submissão servil às autoridades. Mas isto, contudo, era mais uma manifestação de desespero e de vingança do que uma luta. As greves dos anos 90 oferecem-nos muitos mais clarões de consciência: formulam-se reivindicações precisas, calcula-se antecipadamente o momento mais favorável, discutem-se os casos e exemplos de outras localidades, etc. Se os motins eram simplesmente a revolta de oprimidos, as greves sistemáticas representavam já embriões — mas nada mais do que embriões — da luta de classes.
Lénine acha que a
consciência
social-democrata […] só podia ser introduzida de fora
—
von aussen Hineintragenes —, e não algo que surja
espontaneamente
— urwüchsig —, e que
a
classe operária, exclusivamente com as suas próprias forças, só é capaz de
desenvolver uma consciência trade-unionista
— que
não
exclui […] toda a “política”
, mas que a
agitação
e luta políticas
não são
sociais-democratas
—,
quer
dizer, a convicção de que é necessário agrupar-se em sindicatos, lutar contra os
patrões, exigir do governo estas ou aquelas leis necessárias aos operários,
etc.
A razão para isso é que
a
doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas e económicas
elaboradas por representantes instruídos das classes possidentes, por
intelectuais.
A maioria dos operários nunca estudou o que Marx e Engels
estudaram para desenvolverem as mesmas conclusões. É preciso aprender ciência
para saber ciência, e socialismo é uma ciência.
A experiência revolucionária e a capacidade de organização são coisas que se adquirem.
Onde é que eu estaria sem que me introduzissem pessoalmente ao Marxismo? Vi alguns vídeos no YouTube e no TikTok que eram recomendados, que ajudaram com que eu não tivesse uma visão negativa da palavra assustadora “comunismo”. Insatisfeito com as eleições, na altura estava com a ideia de entrar no Partido Comunista Português (PCP) ou na sua ala jovem (JCP) porque eram os que ficavam sentados na outra ponta do parlamento, e eu queria fazer alguma coisa contra a tendência da direita parlamentar estar a crescer. Queria combater um extremo com o outro. Organizam manifestações e afins relacionados com reformas económicas, fazem campanhas eleitorais, e nunca me mandaram ler teoria Marxista ou fazer pensar em lutas políticas. Caso não tivesse entrado no PCP imediatamente (ou no Bloco de Esquerda, outro dos partidos parlamentares) e tivesse feito uma pesquisa mais aprofundada sobre as alternativas — como a que fiz quando voltei a Portugal —, provavelmente iria acabar ou na Internacional Comunista Revolucionária (Trotskyista, fundada por um Ted Grant) ou então no Coletivo Ruptura (não sei como classificá-los, dizem ser um «grupo Comunista pela a abolição da Família, da Propriedade Privada e a extinção do Estado; pela recuperação do Programa Comunista e a auto-emancipação do proletariado!»), apenas baseado no que li das coisas que eles têm na Internet, e especialmente o último, acho que mais depressa iria-me pôr a ler alguma coisa, até porque parece apenas um grupo de estudo Marxista. Então meio que já respondi à minha própria pergunta: uma “vanguarda” facilita a introdução de uma «consciência social-democrata». Se fosse apenas por mim, ia demorar para eu estudar alguma coisa de socialismo científico.
Culto da espontaneidade. O «Rabótchaia Misl»
Os economistas suprimiam
por
completo a consciência pela espontaneidade,
repetindo
fraseologia
burguesa
como:
A política segue sempre docilmente a economia
—materialismo económico
;- que reformas valiam
mais do que todo o socialismo e toda a política
; que a luta exclusivamente sindical — Nur-Gewerkschaftler — é uma luta para eles próprios e para seus filhos, e não para vagas gerações futuras com um vago socialismo futuro.
Lénine defendia que
tudo
o que seja inclinar-se perante a espontaneidade do movimento operário, tudo o
que seja diminuir o papel do “elemento consciente”, o papel da
social-democracia, significa — independentemente da vontade de quem o faz
— fortalecer a influência da ideologia burguesa sobre os operários.
Tudo o que seja rebaixar a ideologia socialista, tudo o que seja afastar-se dela significa fortalecer a ideologia burguesa. Fala-se de espontaneidade. Mas o desenvolvimento espontâneo do movimento operário marcha precisamente para a sua subordinação à ideologia burguesa, […] o movimento operário espontâneo é trade-unionismo, é Nur-Gewerkschaftlerei, e o trade-unionismo implica precisamente a escravização ideológica dos operários pela burguesia. Por isso, a nossa tarefa […] consiste em combater a espontaneidade, em fazer com que o movimento operário se desvie desta tendência espontânea do trade-unionismo de se acolher debaixo da asa da burguesia e em atraí-lo para debaixo da asa da social-democracia revolucionária.
[…]
Mas por que razão — perguntará o leitor — o movimento espontâneo, o movimento pela linha da menor resistência, conduz precisamente à supremacia da ideologia burguesa? Pela simples razão de que a ideologia burguesa é muito mais antiga pela sua origem do que a ideologia socialista, de que está mais completamente elaborada e possui meios de difusão incomparavelmente mais numerosos.
Como anúncios, que não passam de propaganda da ideologia burguesa. Na altura, era a religião especialmente. Hoje são os média, think tanks, o ensino (como meio de difusão de instrução), algoritmos e redes sociais. Temos pessoas a lamber as botas dos ricos, “intelectuais”, “historiadores”, famosos.
A classe operária tende espontaneamente para o socialismo, mas a ideologia burguesa, a mais difundida (e constantemente ressuscitada sob as formas mais diversas), é contudo aquela que mais se impõe espontaneamente aos operários.
O «grupo de auto-emancipação» e a «Rabótcheie Dielo»
Quando um operário desperta, olha à sua volta
e
apega-se instintivamente aos primeiros meios de luta que encontra ao seu
alcance
;
os
primeiros meios de luta “que encontram ao seu alcance” serão sempre, na
sociedade moderna, os meios de luta trade-unionistas e que a primeira ideologia
que encontram ao seu alcance será a ideologia burguesa (trade-unionista).
Qual é o papel da social-democracia, senão o de ser o «espírito» que não só plana sobre o movimento espontâneo, mas eleva este último ao nível do «seu programa»? Não é, com certeza, o de se arrastar na cauda do movimento, coisa inútil no melhor dos casos, e, no pior, extremamente nociva para o movimento.
Política Trade-Unionista e Política Social-Democrata
A agitação política e a sua restrição pelos economistas
Entendemos sempre por luta económica […] a «luta económica prática» que Engels […] chamou «resistência aos capitalistas» e que, nos países livres, se chama luta profissional, sindical ou trade-unionista.
As
folhas
volantes
são
“literatura”
das denúncias económicas (referentes às fábricas e às profissões)
com
reivindicações (melhores condições de trabalho e de vida) da
ordem
de coisas existente nas fábricas…
As
denúncias económicas (das fábricas) foram e continuam a ser uma alavanca
importante da luta económica. E conservarão esta importância enquanto subsistir
o capitalismo, que gera necessariamente a autodefesa dos operários.
O uso das folhas volantes
por
si só
é trade-unionista. As denúncias dizem
unicamente
respeito as relações dos operários de uma dada profissão com os seus
respectivos patrões,
e apenas ensinam aqueles que vendem
a
sua força de trabalho a vender mais vantajosamente esta “mercadoria” e a
lutar contra os compradores no terreno de uma transacção puramente
comercial.
É uma luta profissional.
“Imprimir
à própria luta económica um carácter político” significa […] procurar a
satisfação dessas mesmas reivindicações […] em cada profissão por intermédio
de “medidas legislativas e administrativas”.
A luta
pela
liberdade de greve, pela supressão de todos os obstáculos jurídicos que se
opõem, ao movimento cooperativo e sindical, pela promulgação de leis de
protecção à mulher e à criança, pela melhoria das condições de trabalho mediante
uma legislação sanitária e industrial, etc.
, rebaixa
a
política social-democrata ao nível da política trade-unionista
.
A
social-democracia dirige a luta da classe operária
e
agitação
“económica”
,
não
só para obter condições vantajosas de venda da força de trabalho
—
luta
pelas reformas
—,
não
só para exigir do governo toda a espécie de medidas, mas também (e em primeiro
lugar) para exigir que ele deixe de ser um governo autocrático
,
para
que seja destruído o regime social que obriga os não possuidores a venderem-se
aos ricos.
Subordina,
como a parte ao todo, a luta pelas reformas à luta revolucionária pela
liberdade e o socialismo.
A
educação
política
não se deve limitar à explicação da
opressão
política de que são objecto os operários
nem à explicação do
antagonismo
entre os seus interesses e os dos patrões
.
É
necessário fazer agitação a propósito de cada manifestação concreta
de
opressão política. É necessário um compromisso com a organização de
uma
campanha de denúncias políticas
,
porque,
para fazer agitação a propósito das manifestações concretas da opressão, é
necessário denunciar estas manifestações
.
A
concepção
do ponto de vista do critério dominante entre todos os “economistas” de que a
agitação política deve seguir a agitação económica
, é errada.
Medidas
não menos “amplamente aplicáveis” para tal “integração” [das massas na luta
política] são todas e quaisquer manifestações da opressão policial e dos
desmandos da autocracia e de modo algum apenas as manifestações ligadas à luta
económica.
Por que razão os zémskie natchálniki e os castigos corporais infligidos aos camponeses, a corrupção dos funcionários e a maneira como a polícia trata a «plebe» das cidades, a luta contra os famintos, a perseguição às aspirações do povo à cultura e ao saber, a exacção de impostos, a perseguição dos membros das seitas religiosas, a dura disciplina do chicote imposta aos soldados e o regime de caserna a que são obrigados os estudantes e os intelectuais liberais, por que razão todas estas manifestações de opressão, assim como milhares de manifestações idênticas, que não têm ligação directa com a luta «económica», hão-de representar, em geral, meios e motivos menos «amplamente aplicáveis» à agitação política, para integrar as massas na luta política? Antes pelo contrário: no conjunto total dos casos quotidianos em que o operário sofre (ele próprio e as pessoas que lhe são próximas) privação de direitos, arbitrariedade e violência, é indiscutível que os casos de opressão policial precisamente no terreno da luta sindical não constituem senão uma pequena minoria.
Preconizando, num momento de ascenso revolucionário, a luta pelas reformas como uma pretensa «tarefa» especial, arrasta o partido para trás e faz o jogo do oportunismo tanto «economista» como liberal.
[…]
As concessões «económicas» (ou pseudoconcessões) são, entende-se, os meios mais baratos e mais vantajosos para o governo, porque espera ganhar com eles a confiança das massas operárias.
[…]
«A luta económica contra o governo» é precisamente política trade-unionista, que está a uma distância muito grande, mas mesmo muito grande, da política social-democrata.
De como Martínov aprofundou Plekhánov
Como dito por Georgi Plekhánov:
O propagandista inculca muitas ideias a uma só pessoa ou a um pequeno número de pessoas, enquanto o agitador inculca uma só ideia ou um pequeno número de ideias, mas, em contrapartida, inculca-as a toda uma massa de pessoas.
O propagandista:
Deve dar “muitas ideias”
;- As ideais
só poderão ser assimiladas no momento por poucas (relativamente) pessoas
; - Terá
o cuidado de dar uma explicação completa
das contradições do facto denunciado pelo agitador,principalmente por meio da palavra impressa
.
O agitador,
ao
tratar do mesmo problema
:
Tomará um exemplo, o mais flagrante e mais conhecido do seu auditório
;Fará todos os esforços para inculcar nas “massas” uma só ideia
;Procurará despertar nas massas o descontentamento,
indignação contra […] flagrante injustiça
;Actua de viva voz
.
Alexandre Samoilovich Martínov quis
aprofundar
consideravelmente os princípios tácticos que, em seu tempo, foram desenvolvidos
por Plekhánov
,
definir
a distinção entre a propaganda e a agitação de maneira diferente da que foi
feita por Plekhánov
:
Por propaganda entenderíamos a explicação revolucionária de todo o regime actual, ou das suas manifestações parciais, quer isso se faça de uma forma acessível somente a algumas pessoas ou às grandes massas. Por agitação, no sentido estrito do termo (sic!) entenderíamos o apelo dirigido às massas para certas acções concretas, a promoção da intervenção revolucionária directa do proletariado na vida social.
A “propaganda” englobaria então a propaganda e a agitação, e a “agitação” seria
uma ordem às massas para ação direta.
Lomonóssov-Martínov
acabou por
estabelecer
um terceiro terreno ou uma terceira função da actividade prática, incluindo
nesta função o “apelo dirigido às massas para certas acções concretas”
,
fazendo das massas, os agitadores:
Os teóricos escrevem estudos de investigação sobre a política […] em que “apelam”, digamos assim, para a luta…
;O propagandista faz o mesmo nas revistas e o agitador nos seus discursos públicos
;- A
“acção concreta” das massas
, seria, por exemplo, a assinatura de uma petição com exigências.O apelo para esta acção parte indirectamente dos teóricos, dos propagandistas e dos agitadores, e directamente dos operários que percorrem as fábricas e as casas particulares com as listas de adesão à petição
;
O «apelo», como acto isolado, ou é um complemento natural e inevitável do tratado teórico, da brochura de propaganda e do discurso de agitação, ou constitui simplesmente uma função nitidamente executiva.
Segundo
a “terminologia de Martínov”, resultaria que Kautsky — um propagandista —
e Bebel — um agitador — são ambos propagandistas, e os portadores das
listas de adesão são agitadores
. Verballhornung!
As denúncias políticas e a «educação da actividade revolucionária»
Só se pode «elevar a actividade da massa operária» desde que não nos circunscrevamos à «agitação política no terreno económico». E uma das condições essenciais para essa extensão indispensável da agitação política é organizar denúncias políticas que abarquem todos os terrenos. A consciência política e a actividade revolucionária das massas não podem ser educadas senão com base nestas denúncias.
Lenin fala de
todos
os terrenos
, mas quais são esses terrenos? E quem faz parte das
massas
de que ele menciona? Depois ele diz
quaisquer
que sejam as classes
,
todas
as classes, camadas e grupos da população
,
todas
as classes da sociedade actual
, mas em pensava que só existiam duas classes
(burguesia e proletariado), e ele com certeza não está preocupado com o que
possa acontecer com a burguesia. Será que ele está a referir-se aos servos,
fidalgos e aristocratas, já que a Rússia ainda não era 100 % capitalista? Mas
depois ele menciona
latifundiário
e do padre, do dignitário e do camponês, do estudante e do vagabundo
como
sendo classes diferentes, e também fala de
classes
dominantes
(no plural). A conclusão que tiro então é que existe uma espécie
de “subclasses”, tanto para o proletariado quanto para a burguesia. Afinal,
quantas e quais são as classes que existem hoje, e se diferentes partes do globo
possuem diferentes classes? Hoje só existe capitalismo, e por isso só existe
proletariado e burguesia mesmo. E realmente, depois existem diferentes classes
que fazem parte de uma ou de outro, ou podem fazer parte das duas, mas nunca
deixam de ser ou proletário, ou burguês. Certamente umas delas estão mais
presentes em algumas partes do globo do que em outras.
Uma
verdadeira consciência política
: Está habituada
a
reagir [do ponto de vista social-democrata] contra todos os casos de
arbitrariedade e opressão, de violências e abusos de toda a espécie, quaisquer
que sejam as classes afectadas
.
Uma
verdadeira consciência de classe
:
- Observa
com base em factos e acontecimentos políticos concretos e, além disso, necessariamente de actualidade, […] cada uma das outras classes sociais em todas as manifestações da sua vida intelectual, moral e política;
- Aplica na prática
a análise materialista e a apreciação materialista de todos os aspectos da actividade e da vida de todas as classes, camadas e grupos da população.
O conhecimento da tua classe social
está
inseparavelmente ligado a uma clara compreensão não só dos conceitos teóricos…
ou melhor: não tanto dos conceitos teóricos, como das ideias elaboradas com base
na experiência da vida política sobre as relações entre todas as classes da
sociedade actual.
Dirigir
a atenção, o espírito de observação e a consciência da classe
exclusivamente/principalmente
para
si própria
, não é ser social-democrata.
É
por esta razão que a defesa pelos nossos “economistas” da luta económica como o
meio mais amplamente aplicável para integrar as massas no movimento político é,
pelo seu significado prático, tão profundamente nociva e tão profundamente
reaccionária.
Para se tornar um social-democrata o operário deve ter uma ideia clara da natureza económica e da fisionomia política e social do latifundiário e do padre, do dignitário e do camponês, do estudante e do vagabundo, conhecer os seus pontos fortes e os seus pontos fracos, saber orientar-se nas frases mais correntes e sofismas de toda a espécie com que cada classe e cada camada encobre os seus apetites egoístas e as suas verdadeiras «entranhas», saber distinguir que interesses reflectem estas ou aquelas instituições e leis e como os reflectem.
Para
educar a actividade revolucionária das massas
, para
obter
esta “ideia clara”
, esta consciência política,
são
uma condição indispensável e fundamental
quadros
vivos, denúncias [políticas que abarcam todos os aspectos da vida] em cima dos
acontecimentos
:
De tudo o que sucede num dado momento à nossa volta
;Do que todos e cada um falam ou, pelo menos, murmuram, à sua maneira
;Do que se manifesta em determinados acontecimentos, números, sentenças judiciais, etc., etc., etc.
Organizando
denúncias
sobre todos os assuntos e de actualidade
suficientemente
amplas, convincentes e rápidas contra todas estas infâmias
, qualquer um
compreenderá
ou sentirá
que qualquer elemento do proletariado (independentemente da
classe social) é vítima
dos
abusos e do arbítrio dessa mesma força tenebrosa que tanto o oprime e subjuga a
ele em cada passo da sua vida, e, ao senti-lo, ele próprio quererá reagir,
querê-lo-á irresistivelmente
.
Não
se pode apelar para uma acção — no sentido concreto da palavra e não no sentido
geral — senão no próprio lugar da acção; só pode exortar os outros à acção
aquele que se lança na acção.
É complicado um estudante agir com ação direta quando o problema é com o professor se ele não compreende que o que causa o problema ao professor (ou a qualquer outro elemento do proletariado) é também o causador dos seus problemas. Como vamos fazer para os pequenos burgueses que votam “liberal” participarem numa greve geral se eles acham que o problema não é deles também? Como do teu Estado imperialista vais conseguir parar o rearmamento e guerras se o povo não sente que o inimigo está na sua casa também? As denúncias políticas servem exatamente para criar esta proximidade necessária entre todos os dominados. E obviamente, “faz o que eu digo e não faças o que eu faço” não vai funcionar aqui, tens que dar o exemplo.
Compete-nos aprofundar, alargar e intensificar as denúncias políticas e a agitação política
;- É preciso
transformar esta política trade-unionista numa luta política social-democrata, aproveitar os vislumbres de consciência política que a luta económica fez penetrar no espírito dos operários para elevar estes à consciência política social-democrata
; - Temos de
saber tudo o que os outros sabem, […] conhecer pormenorizadamente todos os aspectos da vida política e participar activamente em todos e cada um dos acontecimentos políticos
; É necessário que os intelectuais nos repitam menos o que nós próprios sabemos, e que nos dêem mais daquilo que ainda ignoramos, daquilo que a nossa experiência “económica” e fabril nunca nos ensinará: os conhecimentos políticos, [não] apenas sob a forma de raciocínios, brochuras e artigos… mas indispensavelmente sob a forma de denúncias vivas de tudo aquilo que o nosso governo e as nossas classes dominantes fazem actualmente em todos os aspectos da vida.
Que há de comum entre o economismo e o terrorismo?
Os
“economistas” e os terroristas contemporâneos têm uma raiz comum, a saber: o
culto da espontaneidade
:
Os “economistas” à espontaneidade do “movimento nitidamente operário”
;Os terroristas à espontaneidade da mais ardente indignação dos intelectuais, que não sabem ou não têm a possibilidade de ligar num todo o trabalho revolucionário e o movimento operário.
Svoboda (Liberdade)
“nega
completamente” o papel de intimidação do terror…, mas, por outro lado,
sublinha o seu “significado como excitante”
:
Reconhecer que actualmente é impossível “intimidar” o governo — e, por conseguinte, desorganizá-lo — por meio do terror equivale, no fundo, a uma redonda condenação do terror como sistema de luta, como campo de actividade consagrado por um programa
;Isto é ainda mais característico como exemplo da incompreensão das nossas tarefas imediatas no que se refere à “educação da actividade revolucionária das massas”.
O «Svoboda» faz propaganda do terror como meio para «excitar» o movimento operário e imprimir-lhe «um forte impulso». […] Cabe perguntar se não existem na vida russa tão poucos abusos que ainda se torne necessário inventar meios «excitantes» especiais. […] As massas […] excitam-se muito com as infâmias da vida russa, mas nós não sabemos reunir […] e concentrar todas as gotas e pequenos regatos da excitação popular que a vida russa destila em quantidade incomensuravelmente maior do que aquilo que nós pensamos, mas que há que reunir numa única torrente gigantesca. O «Svoboda» quer substituir a agitação pelo terror.
A classe operária como combatente de vanguarda pela democracia
A luta económica «leva» os operários a pensar unicamente nos problemas relacionados com a atitude do governo em relação à classe operária; por isso, por mais que nos esforcemos na tarefa de «imprimir à própria luta económica um carácter político», nunca poderemos […] desenvolver a consciência política dos operários (até ao grau de consciência política social-democrata)…
[…]
A consciência política de classe não pode ser levada ao operário senão do exterior, isto é, de fora da luta económica… A única esfera em que se pode obter estes conhecimentos é na esfera das relações de todas as classes e camadas com o Estado e o governo, na esfera das relações de todas as classes entre si. […] Para levar aos operários conhecimentos políticos, os sociais-democratas devem ir a todas as classes da população, devem enviar para toda a parte destacamentos do seu exército.
Um círculo social-democrata da altura,
“está
em contacto com os operários” […] editando folhas volantes em que flagela os
abusos cometidos nas fábricas, a parcialidade do governo a favor dos
capitalistas, bem como as violências da polícia
. Para Lénine, falta
estabelecer
e desenvolver, sistematicamente, relações com as outras classes da
sociedade.
É uma
raridade
extrema
existirem
conferências
e debates sobre
:
A história do movimento revolucionário
;A política interna e externa do nosso governo
;A evolução económica
, na época,da Rússia e da Europa
, hoje, das várias regiões do globo;A situação das diferentes classes na sociedade contemporânea
;- …
Assuntos que não são falados com certeza nos média e comunicação social padrão (burguesa), e se fôr, é na prespectiva da classe dominante.
O social-democrata deve:
- Ser
o tribuno popular que saiba reagir contra toda a manifestação de arbitrariedade e de opressão, onde quer que se produza e qualquer que seja a camada ou a classe social atingida;
- Saber
sintetizar todos estes factos para traçar um quadro de conjunto da brutalidade policial e da exploração capitalista, que saiba aproveitar o mais pequeno pormenor para expor perante todos as suas convicções socialistas e as suas reivindicações democráticas, para explicar a todos e a cada um o alcance histórico-mundial da luta emancipadora do proletariado.
- Abordar,
de um ponto de vista revolucionário, todo o regime actual ou as suas manifestações parciais
; - Sem deixar de formular
as reivindicações imediatas do proletariado
e indicaros meios de as satisfazer
,“dirigir ao mesmo tempo a enérgica actividade dos diferentes sectores oposicionistas”, a “ditar-lhes um programa positivo de acção”
,um programa de acção para toda a democracia
; Denunciar os abusos
de forma unilateral
;- Dar importância à
propaganda de ideias brilhantes e acabadas
; - Fazer dos meios impressos de propaganda
órgão da oposição revolucionária que denuncia o estado de coisas reinante no nosso país e, sobretudo, o estado de coisas político, na medida em que se opõe aos interesses das mais diversas camadas da população
; “Ir a todas as classes da população” como teóricos, como propagandistas, como agitadores e como organizadores
;saber organizar reuniões com representantes de todas as classes da população que queiram ouvir um democrata
;expor e destacar perante todo o povo os objectivos democráticos gerais, sem dissimular um só instante as nossas convicções socialistas
;ser o primeiro a levantar, acentuar e resolver todas as questões democráticas gerais
;
O
trabalho teórico dos sociais-democratas deve orientar-se para o estudo de todas
as particularidades da situação social e política das diferentes classes.
Alguns dos membros dos comités e círculos devem ocupar-se
especialmente
da recolha de materiais sobre uma questão de actualidade da nossa vida social e
política que pudesse dar motivo para um trabalho social-democrata entre outras
camadas da população.
Mas o trabalho principal deve ser
a
propaganda e a agitação [políticas] entre todas as camadas da
população
sobre
todos
os fenómenos e acontecimentos da vida social e política que afectem o
proletariado, seja directamente, como classe particular, seja como vanguarda
de todas as forças revolucionárias na luta pela liberdade.
A
existência
de reuniões e assembleias populares, às quais assistem todos os que o
desejam; […] do parlamento, onde o representante social-democrata fala perante
os deputados de todas as classes
facilita esse trabalho, ao contrário de
um cenário, como o da Rússia autocrata, sem
parlamento
nem liberdade de reunião
(embora não seja impossível
organizar
reuniões com os operários que querem ouvir um social-democrata
).
Os comunistas apoiam todos os movimentos revolucionários.
O que faz um movimento ser “revolucionário”. E apoiamos
todos
mesmo?
Existem dois tipos possíveis de revolução:
- A revolução burguesa, feita por cima;
- E a revolução vinda de baixo, usando as massas como motor de transformação.
A revolução vinda de baixo pode no início ser também uma revolução burguesa, como foi na Rússia, porque existia um inimigo em comum: a aristocracia. Ela não permitia o desenvolvimento capitalista da Rússia.
É por isso que Lénine defendia o apoio tático anti-czarista. É por isso que os Большевики́ participaram no parlamento. Mas nunca para a defesa da gestão do Estado. Nunca para a defesa da burguesia. Por isso é que existia apoio tático ao fim do colonialismo (no continente africano e não só), à revolução da China, as revoluções democrático-burguesas, porque todas elas aceleram o desenvolvimento do capitalismo. Era necessário acabar com a classe de camponeses.
Naquela época, os liberais eram progressistas. Hoje, o mundo inteiro é capitalista e dominado por imperialistas. Já não existe a necessidade de apoios táticos a nenhuma burguesia.
O social-democrata deve:
- dirigir a
participação das diferentes camadas sociais [dos estudantes, dos liberais, etc.] no derrubamento da autocracia, […] “actividade enérgica dos diferentes sectores da oposição”
, e nãopelos seus “interesses imediatos”
, senão não será “vanguarda”; sugerir àqueles que só estão descontentes com o regime universitário ou com o do zemstvo, etc., a ideia de que é mau todo o regime político.
, senão não será democrata avançado.
Não basta intitular-se «vanguarda», destacamento avançado: é preciso proceder de modo a que todos os outros destacamentos vejam e sejam obrigados a reconhecer que marchamos à cabeça.
Um radical ou constitucionalista liberal
representantes
avançados da democracia burguesa
querem
integrar
os operários na política, mas só na política trade-unionista, e não na
política social-democrata.
A
política trade-unionista da classe operária é precisamente a política
burguesa da classe operária.
Confundem a palavra vanguarda com a palavra retaguarda.
… Nós devemos assumir a tarefa de organizar uma ampla luta política, sob a direcção do nosso partido, e tão multiforme que todos os sectores da oposição possam prestar e prestem efectivamente a esta luta, assim como ao nosso partido, a ajuda de que forem capazes. Nós devemos fazer dos militantes práticos sociais-democratas chefes políticos capazes de dirigir todas as manifestações desta luta multiforme, que saibam, no momento necessário, «ditar um programa positivo de acção» aos estudantes em agitação, aos zémtsi descontentes, aos membros indignados das seitas, aos professores primários lesados nos seus interesses, etc., …
[…]
… Um dos defeitos fundamentais do nosso movimento, tanto do ponto de vista político como do de organização, é o de não sabermos empregar todas estas forças e atribuir-lhes o trabalho adequado… A imensa maioria destas forças está completamente impossibilitada de «ir aos operários»; por conseguinte, não se põe o problema do perigo de desviar forças do nosso trabalho essencial. E para ministrar aos operários conhecimentos políticos verdadeiros, vivos, que abarquem todos os aspectos, é necessário que tenhamos «homens nossos», sociais-democratas, em toda a parte, em todas as camadas sociais, em todas as posições que permitam conhecer as molas internas do nosso mecanismo estatal. E precisamos destes homens, não só para a propaganda e a agitação, mas ainda, e sobretudo, para a organização.
[…]
Não seríamos «políticos» e sociais-democratas senão em palavras […] se não tivéssemos consciência do nosso dever de utilizar todas as manifestações de descontentamento de qualquer género e de reunir e elaborar todos os elementos de protesto, por embrionário que seja. […] Aos que querem ter uma ideia concreta desta agitação política do social-democrata em todas as classes e camadas da população, indicaremos as denúncias políticas, no sentido amplo do termo, como principal meio (mas não o único, bem entendido) desta agitação.
As denúncias políticas e
as pessoas
capazes de denunciar e dispostas a fazê-lo não têm uma tribuna donde possam
falar, não têm um auditório que escute avidamente e encoraje os oradores; não
vêem em parte alguma no povo uma força à qual valha a pena dirigir uma queixa
contra o “todo-poderoso” governo russo… Agora, podemos e devemos criar uma
tribuna para denunciar o governo tsarista perante todo o povo; e essa tribuna
deve ser um jornal social-democrata.
Tal
auditório ideal para as denúncias políticas é precisamente a classe operária,
que tem necessidade, antes e sobretudo, de amplos e vivos conhecimentos
políticos, e que é a mais capaz de transformar esses conhecimentos em luta
activa, mesmo que esta não prometa qualquer “resultado tangível”. Quanto à
tribuna para estas denúncias perante todo o povo, só pode ser um jornal
destinado a todos.
… As denúncias políticas são precisamente uma declaração de guerra ao governo, da mesma maneira que as denúncias de tipo económico são uma declaração de guerra ao fabricante. E esta declaração de guerra terá um significado moral tanto maior quanto mais vasta e vigorosa for a campanha de denúncias, quanto mais numerosa e decidida for a classe social que declara a guerra para a iniciar. As denúncias políticas são pois, já por si, um dos meios mais poderosos para desagregar o regime adverso, separar o inimigo dos seus aliados fortuitos ou temporários e semear a hostilidade e a desconfiança entre os que participam continuamente no poder autocrático.
Só o partido que organize campanhas de denúncias realmente dirigidas a todo o povo poderá tornar-se, nos nossos dias, vanguarda das forças revolucionárias. As palavras «todo o povo» encerram um conteúdo muito grande. A imensa maioria dos denunciadores que não pertencem à classe operária (e para ser vanguarda é necessário, precisamente, atrair outras classes) são políticos realistas e pessoas sensatas e com sentido prático. Sabem muito bem que é perigoso «queixar-se» mesmo de um modesto funcionário e fazê-lo contra o «todo-poderoso» governo russo ainda o é muito mais. Por isso, só se dirigirão a nós com queixas quando virem que estas podem ter efeito, [e] que representamos uma força política. Para chegar a ser uma força política aos olhos do público é necessário trabalhar muito e obstinadamente para elevar o nosso grau de consciência, o nosso espírito de iniciativa e a nossa energia; para isso não basta colar o rótulo de «vanguarda» numa teoria e numa prática de retaguarda.
Mas — perguntar-nos-ão e perguntam-nos já os partidários excessivamente zelosos da «estrita ligação orgânica com a luta proletária» — se nos devemos encarregar da organização de denúncias dos abusos cometidos pelo governo, dirigidas realmente a todo o povo, em que se manifestará então o carácter de classe do nosso movimento? — Pois precisamente em sermos nós, os sociais-democratas, quem organizará essas campanhas de denúncias dirigidas a todo o povo; em que todas as questões levantadas na nossa agitação serão esclarecidas a partir de um ponto de vista invariavelmente social-democrata, sem a menor indulgência para com as deformações, intencionais ou não, do marxismo; em que esta ampla agitação política multiforme será realizada por um partido que reúne, num todo indivisível, a ofensiva em nome de todo o povo contra o governo, a educação revolucionária do proletariado, salvaguardando ao mesmo tempo a independência política deste, a direcção da luta económica da classe operária e a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores, conflitos que põem de pé e atraem sem cessar para o nosso campo novas e novas camadas do proletariado!
Mas um dos aspectos mais característicos do «economismo» é precisamente não compreender esta relação; mais ainda, não compreender que a necessidade mais urgente do proletariado (educação política em todos os aspectos por meio da agitação política e das denúncias políticas) coincide com idêntica necessidade do movimento democrático geral…
Os
intelectuais
“economistas”
tratam os operários como crianças que teriam dificuldade de
passar imediatamente à luta contra o absolutismo. Lénine diz que eles
estão
prontos a bater-se mesmo por reivindicações que não prometam, para falar a
linguagem do inolvidável Martínov, qualquer “resultado tangível”
, e que os
economistas estão a culpar os operários pelo seu próprio atraso (atraso dos
economistas).
Acusam o Iskra de
procurar
aliados nas fileiras dos liberais e dos intelectuais
:
Em que, perguntaremos aos nossos «economistas», deve consistir a «acumulação de forças pelos operários para esta luta»? Não é evidente que consiste na educação política dos operários, em pôr perante eles a nu todos os aspectos do nosso infame regime autocrático? E não é claro que justamente para este trabalho necessitamos de ter «aliados entre os liberais e os intelectuais» prontos a trazerem-nos as suas denúncias sobre a campanha política contra os zemtsi, os professores primários, os funcionários da estatística, os estudantes, etc.?
É necessária essa aliança hoje? Já foi respondido. Não são precisos aliados que criam mais-valia para o capital. A escolha de aliados não deve ser um julgamento moralista, mas sim um julgamento político. No entanto, diferentes grupos económicos têm interesses opostos. Conhecer as burguesias é essencial para combatê-las.
Mais uma vez «caluniadores», mais uma vez «mistificadores»
… Não é necessário reflectir muito para compreender a razão por que todo o culto da espontaneidade do movimento de massas, todo o rebaixamento da política social-democrata ao nível da política trade-unionista, equivale a preparar o terreno para converter o movimento operário num instrumento da democracia burguesa. O movimento operário espontâneo não pode criar por si só senão o trade-unionismo (e cria-o inevitavelmente), e a política trade-unionista da classe operária não é mais do que a política burguesa da classe operária. A participação da classe operária na luta política, e mesmo na revolução política, de maneira nenhuma faz da sua política uma política social-democrata.
Apenas a interação e convivência entre as diferentes classes já criaria a consciência política? Bem, provavelmente a consciência política iria trocar sim para uma nova, mas não ia ser para a consciência política comunista.
Concepção brentaniana da luta de classes, «brentanismo»: doutrina liberal-burguesa que defende a possibilidade de resolver a questão operária no quadro do capitalismo, pela via da legislação industrial e da organização dos operários em sindicatos. Deve o seu nome a L. Brentano, um dos principais representantes da escola do socialismo de cátedra na economia política burguesa.
… Por toda a parte a social-democracia está na primeira linha, excitando o descontentamento político em todas as classes, sacudindo os adormecidos, estimulando os atrasados, fornecendo abundantes materiais para desenvolver a consciência política e a actividade política do proletariado. Como consequência de tudo isto, até os inimigos conscientes do socialismo respeitam este lutador político de vanguarda, e não é raro que um documento importante, não só das esferas burguesas mas mesmo das esferas burocráticas e da corte, vá parar, por uma espécie de milagre, à sala de redacção do Vorwärts.
O Trabalho Artesanal dos Economistas e a Organização dos Revolucionários
Para
a “luta económica contra os patrões e o governo” é absolutamente desnecessária
uma organização
:
centralizada para toda a Rússia (que, por isso mesmo, não pode formar-se no decorrer de tal luta)
;que reúna num único impulso comum todas as manifestações de oposição política, de protesto e de indignação
;formada por revolucionários profissionais e dirigida por verdadeiros chefes políticos de todo o povo
.
O carácter da estrutura de qualquer instituição é determinado, natural e inevitavelmente, pelo conteúdo da actividade dessa instituição.
O movimento não cresce se continuarmos a ser
artesãos
no que toca à
organização
e prosternarmo-nos ao culto de espontaneidade.
Agora,
quando a vaga da indignação espontânea nos envolve, por assim dizer, a nós
dirigentes e organizadores do movimento,
é particularmente necessário:
a luta mais intransigente contra toda a defesa do atraso, contra toda a legitimização da estreiteza de vistas neste sentido;
despertar em quantos participam ou se propõem participar no trabalho prático o descontentamento pelo trabalho artesanal que reina entre nós e a decisão inquebrantável de nos desembaraçarmos dele.
O que é o trabalho artesanal?
O trabalho artesanal é a
escassez
geral de forças revolucionárias aptas para a acção
, a
escassez
de forças revolucionárias de alta qualidade […] cada vez mais sensível [e
que] não deixa de influir na profundidade e no carácter geral do
movimento
. É quando
o
crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento e desenvolvimento das
organizações revolucionárias
.
A
tarefa primordial dos nossos sociais-democratas […] deve consistir em
unificar realmente as organizações, com uma selecção rigorosa dos seus
membros.
O trabalho artesanal e o economismo
Lénine acha que existe uma relação entre esse
trabalho
artesanal e o “economismo”
,
que
afecta todo o movimento
.
A
falta de preparação prática, a falta de habilidade no trabalho de organização
são, com efeito, coisas comuns a todos nós… Mas […] o conceito “trabalho
artesanal” supõe também outra coisa:
o reduzido alcance de todo o trabalho revolucionário em geral
;o não compreender que com base neste trabalho de vistas estreitas não se pode constituir uma boa organização de revolucionários
;- as
tentativas para justificar esta estreiteza de vistas e para a erigir numa “teoria” particular, isto é, supõe o culto da espontaneidade também neste campo.
Existem duas tendências que deixam a tarefa prática de
criar
uma organização de revolucionários capaz de dar à luta política energia,
firmeza e continuidade
:
- A oportunista — dizem que
a massa operária não tinha formulado ainda […] tarefas políticas tão amplas e tão combativas como aquelas que lhe “impunham” os revolucionários, que deve ainda lutar por reivindicações políticas imediatas, travar “uma luta económica contra os patrões e o governo” (e a esta luta “acessível” ao movimento de massas corresponde, naturalmente, uma organização “acessível” mesmo à juventude menos preparada)
; - A
revolucionarista
— dizem que dá e devemos“fazer a revolução política”, mas que, para isso, não havia qualquer necessidade de criar uma forte organização de revolucionários que educasse o proletariado numa luta firme e tenaz; que para isso era suficiente agarrarmos todos no pau já conhecido e “acessível”
.
… A causa fundamental da crise que a social-democracia russa atravessa actualmente reside no atraso dos dirigentes («ideólogos», revolucionários, sociais-democratas) em relação ao ascenso espontâneo das massas. […] O perigo de minimizar a importância do elemento espontâneo, da cinzenta luta quotidiana, sobre a táctica-processo, etc., são precisamente uma defesa e uma exaltação do trabalho artesanal.
… O nosso pecado capital consiste em rebaixar as nossas tarefas políticas e de organização ao nível dos interesses imediatos, «tangíveis», «concretos» da luta económica quotidiana…
A práxis não é rebaixar as
tarefas
ao nível de compreensão das camadas mais atrasadas das massas
.
As
tarefas políticas no sentido mais real, mais prático do termo
é quando a
propaganda
encontra
eco na massa,
na
classe
revolucionária
,
que
desperta espontaneamente
.
… Preparamo-nos, preparar-nos-emos e estaremos preparados! […] É precisamente agora que o revolucionário russo, guiado por uma teoria verdadeiramente revolucionária, apoiando-se numa classe verdadeiramente revolucionária, que desperta espontaneamente, pode finalmente — finalmente! — levantar-se em toda a sua estatura e desenvolver todas as suas forças de gigante…
Temos também
o
problema das relações entre a organização de revolucionários profissionais e o
movimento puramente operário.
Revolucionários
profissionais
são aqueles que a massa de operários
destaca, com
qualidades
especiais
para
a
luta contra a polícia política
.
… Uma greve secreta é impossível para as pessoas que nela participam ou que com ela tenham relação imediata. Mas, para a massa dos operários russos, esta greve pode ser (e é na maioria dos casos) «secreta», porque o governo terá o cuidado de cortar todas as comunicações com os grevistas, terá o cuidado de tornar impossível toda a difusão de notícias sobre a greve. E é aqui que já se torna necessária a «luta contra a polícia política», uma luta especial, uma luta que nunca poderá ser travada activamente por uma massa tão ampla como aquela que participa nas greves. Esta luta deve ser organizada, «segundo todas as regras da arte», por pessoas que tenham como profissão a actividade revolucionária. E o facto de as massas se terem integrado espontaneamente no movimento não torna agora menos necessária a organização desta luta. Pelo contrário, a organização torna-se, por este motivo, mais necessária, porque nós, os socialistas, faltaríamos às nossas obrigações directas perante as massas se não soubéssemos impedir a polícia de tornar secreta (e se, por vezes, não preparássemos nós próprios em segredo) qualquer greve ou manifestação. E saberemos fazê-lo precisamente porque as massas que despertam espontaneamente destacarão também do seu seio um número cada vez maior de «revolucionários profissionais» (desde que não nos ocorra convidar os operários, em todos os tons, a continuar a marcar passo).
A organização de operários e a organização de revolucionários
Se, para um social-democrata, no conceito de «luta económica contra os patrões e o governo» se encontra englobado o de luta política, é natural esperar que o conceito de «organização de revolucionários» fique mais ou menos englobado no de «organização de operários»…
… A luta política da social-democracia é muito mais ampla e mais complexa do que a luta económica dos operários contra os patrões e o governo. Do mesmo modo (e como consequência disto), a organização de um partido social-democrata revolucionário deve ser, inevitavelmente, de um género diferente da organização dos operários para a luta económica…
As
organizações operárias para a luta económica deve ser:
Sindical;
O mais ampla possível
—É absolutamente contrário aos nossos interesses exigir que só os sociais-democratas possam ser membros das uniões «profissionais», já que isso reduziria a nossa influência sobre a massa. […] O próprio objectivo das uniões profissionais seria inexequível […] se estas uniões profissionais não fossem organizações muito amplas
;O menos clandestina possível
.
Todo
o operário social-democrata deve, dentro do possível, apoiar estas organizações
e nelas trabalhar activamente.
Numa
organização ampla, a clandestinidade rigorosa é impossível (pois exige muito
mais preparação do que a necessária para participar na luta económica).
Para
que estas organizações sejam o menos clandestino possível de modo a
contar
com efectivos numerosos
, existem não mais que duas vias:
a legalização das associações profissionais (que em certos países precedeu a legalização das associações socialistas e políticas)
. Neste caso,o nosso dever consiste em desmascarar constantemente toda a participação dos socialistas policiais, dos gendarmes e dos padres
— reacionários em geral —nesta corrente, e revelar aos operários as verdadeiras intenções destes elementos. O nosso dever consiste em desmascarar também a nota conciliadora, de “harmonia”, que se manifeste nos discursos dos liberais nas reuniões públicas de operários, quer essas notas se devam a que essas pessoas estejam sinceramente convencidas que é desejável uma colaboração pacífica das classes, quer tenham a intenção de ficar bem vistas pelas autoridades, quer sejam simplesmente inábeis. Devemos, enfim, pôr os operários em guarda contra as armadilhas da polícia que, frequentemente, nestas reuniões públicas e nas sociedades autorizadas observa os “mais ardorosos” e procura aproveitar-se das organizações legais para introduzir provocadores também nas ilegais.
Fazer tudo isto não significa de modo nenhum esquecer que a legalização do movimento operário beneficiar-nos-á, no fim de contas, a nós, e não, de modo algum, aos Zubátov
.Todo o alargamento deste género beneficiar-nos-á e apressará o aparecimento de associações legais, onde não serão os provocadores que pescarão os socialistas, mas os socialistas que pescarão adeptos da sua causa. […] Devemos preparar ceifeiros que hoje saibam arrancar o joio e amanhã ceifar o trigo.
a manutenção da organização secreta, mas tão “livre”, tão pouco formalizada, tão lose, como dizem os alemães, que para a massa dos membros o regime clandestino fique reduzido a quase nada
.
Assim,
nós não podemos, por meio da legalização, resolver o problema da criação de
uma organização sindical o menos clandestina e o mais ampla possível
, e se
oferecerem
a
possibilidade, mesmo parcial, de resolver o problema deste modo
,
temos
de os combater com a maior energia possível!
Resta-nos
o recurso das organizações sindicais secretas e devemos prestar toda a ajuda
aos operários que seguem já (segundo sabemos com toda a certeza) por esse
caminho.
No contexto do
jugo
da autocracia
, do fascismo, da reação, que
apaga,
à primeira vista, qualquer distinção entre a organização social-democrata e as
associações operárias porque todas as associações operárias e todos os
círculos estão proibidos
, incitando
fortemente
os operários que lutam no terreno económico a pensar nas questões políticas
e
os
sociais-democratas a confundir o trade-unionismo com a social-democracia
,
a
organização de revolucionários
:
deve englobar [como característica geral dos membros] pessoas cuja profissão seja a actividade revolucionária (por isso falo de uma organização de revolucionários, pensando nos revolucionários sociais-democratas)
;deve desaparecer por completo toda a distinção entre operários e intelectuais, para não falar já da distinção entre as diferentes profissões de uns e outros
;não deve ser muito extensa, e é preciso que seja o mais clandestina possível.
Isso mesmo que leste, revolucionários profissionais! Serão os
dirigentes da organização estritamente política, que lutam contra a polícia
política para a vida, full-time, facilitando a luta económica
dos operários. Fazem todo o trabalho clandestino. Mas quem são e quem é que
define esses os dirigentes? São pessoas do proletariado que serão forjadas para
se tornarem revolucionárias. Na melhor das hipóteses, essas pessoas surgirão das
massas e virão elas mesmas ao encontro da organização. Depois, de 100 pessoas,
talvez 10 estejam realmente interessadas, e desses 10, apenas 1 será apta para
esse trabalho, e será dever do partido ajudá-la a se tornar uma revolucionária
profissional. Acho que o problema principal está outra vez quem é que começou a
organização. As próprias massas vão destacar pessoas para este trabalho, mas
depois, será a organização correta que irá recebê-los? Volta à questão de “com
quais organizações nos devemos unir”. As organizações com quem as massas têm
“fé”, que as que inspiram confiança nas massas? Mas e se essa organização na
realidade não tiver
uma
base teórica firme e contando com um órgão social-democrata
? Tipo, quem é o
real comunista? Porque hoje existem pessoas com “confiança ilimitada” em
partidos reacionários e naqueles que os exploram.
Se o povo vê o partido representa
uma
força política
, e confiam no partido ao ponto de se dirigirem com as
queixas
para depois ser possível o partido fazer as
campanhas
de denúncias
, eles vão acreditar naquilo que o partido diz. Se eles fazem
questões
[durante a] agitação
, eles vão levar as respostas a sério. O que garante que
o esclarecimento vai ser
a
partir de um ponto de vista invariavelmente social-democrata, sem a menor
indulgência para com as deformações, intencionais ou não, do marxismo
? O que
garante ao povo que o esclarecimento é bom?
Se o partido consegue fazer uma análise marxista da situação atual das coisas de modo a conseguir prever quase com exatidão o que vai acontecer nos próximos anos, e que depois essas previsões se tornam reais, talvez isso mostrará qual organização está melhor preparada e será levada com mais seriedade. Só a História (também a do passado) é capaz de fazer este teste. E não é necessariamente a “fé” das massas e a legitimidade pela população que medem isto. O Chega “adapta-se” à opinião das massas, por exemplo, como se não tivesse um programa fixo. Assim, qualquer um consegue ganhar popularidade entre as massas.
Nos países que gozam de liberdade política, a diferença entre a organização sindical e a organização política é perfeitamente clara, como também é clara a diferença entre as trade-unions e a social-democracia. É claro que as relações entre esta última e as trade-unions variam inevitavelmente de país para país, segundo as condições históricas, jurídicas, etc., podendo ser mais ou menos estreitas, complexas, etc. (devem ser, na nossa opinião, o mais estreitas e o menos complexas possível).
O
social-democrata deve, acima de tudo, pensar numa organização de revolucionários
capazes de dirigir toda a luta emancipadora do proletariado.
Uma
organização […] com um grupo central em cada fábrica, torna fácil que os
gendarmes efectuem vagas de prisões incrivelmente vastas. […] Se queremos
amplas organizações de operários e não amplas vagas de prisões, se não queremos
fazer o gosto aos gendarmes, devemos fazer com que estas organizações não sejam
formalizadas,
como uma trade-union.
A
crónica dos acontecimentos [de tudo o que se passa na fábrica]
por exemplo,
seria feita na imprensa ilegal deforma sem necessidade de estatutos. Os
agitadores, por meio de conversas, saberão
quais
são as reivindicações que os operários querem apresentar
, e depois
transmite-as
a
uma organização restrita, e não ampla, de revolucionários que editará uma folha
volante apropriada.
O objetivo é dar
mais
trabalho para deslindar os fios da organização.
… Um pequeno núcleo bem unido, composto pelos operários mais seguros, mais experientes e mais bem temperados, com delegados nos principais bairros, e em rigorosa ligação clandestina com a organização de revolucionários poderá perfeitamente, com o mais amplo concurso da massa e sem nenhuma regulamentação, realizar todas as funções que competem a uma organização sindical e, além disso, realizá-las precisamente da maneira desejável para a social-democracia. Só assim se poderá consolidar e desenvolver, apesar de todos os gendarmes, o movimento sindical social-democrata.
… Esta «organização sem membros» fará tudo o que é necessário e assegurará, desde o próprio início, um contacto sólido entre as nossas futuras trade-unions e o socialismo. Aqueles que, sob o absolutismo, querem uma ampla organização de operários, com eleições, relatórios, sufrágio universal, etc., são uns utopistas incuráveis.
Uma
ampla organização operária com o pretexto de que esta é a mais “acessível” à
massa
, oferece é acessibilidade
aos
gendarmes […] e porá os revolucionários mais ao alcance da Polícia
.
Ficamos sem
assegurar
a estabilidade do movimento no seu conjunto
, e simultaneamente, sem atingir
os
objectivos sociais-democratas e os objectivos propriamente trade-unionistas.
Não
nos desembaraçaremos do nosso trabalho artesanal e, com o nosso fraccionamento e
os nossos fracassos contínuos, não faremos senão tornar acessíveis à massa as
trade-unions do tipo Zubátov ou Ózerov.
Um
raciocínio muito típico do nosso terrorista […] anda de braço dado com o
[raciocínio do] “economista”:
em
vez de se apelar para os bons dirigentes contra os maus, o autor apela para a
“multidão” contra os dirigentes em geral. Isto significa tentar fazer-nos
retroceder no que se refere à organização, do mesmo modo que a ideia de
substituir a agitação política pelo terror excitante nos faz retroceder no
sentido político.
Na Alemanha, víamos
tentativas
demagógicas de opor a “multidão” aos “chefes”, de nela despertar maus instintos
de vaidade, de privar o movimento de solidez e estabilidade, minando a confiança
que a massa sente pela “dezena de homens inteligentes”
, provocando no
operário,
a
desconfiança em relação a todos os que lhe trazem de fora conhecimentos
políticos e experiência revolucionária, e que desperta nele o desejo instintivo
de repelir todas as pessoas deste género
. Mas eles compreendem que,
sem
“uma dezena” de chefes de talento (e os talentos não surgem às centenas), de
chefes provados, profissionalmente preparados e instruídos por uma longa prática
e bem unidos entre si, não é possível, na sociedade contemporânea, a luta firme
de qualquer classe.
A luta necessita dos chefes mesmo? Ou uma luta sem chefes só seria possível se todos tivessem estudado revoluções passadas e os seus erros, etc.? É necessário entender que estes chefes, são chefes revolucionários profissionais, e que não é qualquer um que consegue fazer o seu trabalho. Uma luta sem chefes é uma luta desorganizada e sem direção. Talvez um nome melhor do que “chefe”, que soa a burocracia, seja, na verdade, “dirigente”.
Os demagogos são os piores inimigos da classe operária. São os piores porque excitam os maus instintos da multidão, e porque é impossível aos operários atrasados reconhecer estes inimigos, que se apresentam, às vezes sinceramente, na qualidade de amigos. São os piores porque, neste período de dispersão e de vacilação, em que a fisionomia do nosso movimento ainda se está a formar, nada há de mais fácil do que arrastar demagogicamente a multidão, que só as provações mais amargas poderão depois convencer do seu erro.
O
que é necessário é um comité de revolucionários profissionais, sem que
importe se são estudantes ou operários [que se forjem como tais revolucionários
profissionais] os que são capazes de fazer a sua educação como revolucionários
profissionais.
Quais
deverão ser, propriamente, as funções desta organização de revolucionários?
:
Não pode haver movimento revolucionário sólido sem uma organização estável de dirigentes, que assegure a continuidade;
Quanto mais extensa for a massa espontaneamente integrada na luta, massa que constitui a base do movimento e que nele participa, mais premente será a necessidade de semelhante organização e mais sólida deverá ela ser (já que será mais fácil aos demagogos de toda a espécie arrastar as camadas atrasadas da massa);
Tal organização deve ser formada, fundamentalmente, por Homens entregues profissionalmente às actividades revolucionárias;
Num país autocrático, quanto mais restringirmos o contingente dos membros de uma organização deste tipo, a ponto de não incluir nela senão os filiados que se ocupem profissionalmente de actividades revolucionárias e que tenham já uma preparação profissional na arte de lutar contra a polícia política, mais difícil será “caçar” esta organização, e maior será o número de pessoas, tanto da classe operária como das demais classes da sociedade, que poderão participar no movimento e colaborar activamente nele.
… Nunca poderemos elevar uma organização ampla ao nível da clandestinidade, sem a qual nem sequer se pode falar de uma luta firme e continuada contra o governo. E a concentração de todas as funções clandestinas nas mãos do menor número possível de revolucionários profissionais não significa, de maneira alguma, que estes últimos «pensarão por todos», que a multidão não tomará uma parte activa no movimento. Pelo contrário, a multidão fará surgir do seu seio um número cada vez maior de revolucionários profissionais, porque saberá então que não basta que alguns estudantes e operários que lutam no terreno económico se reúnam para constituir um «comité», mas que é necessário, através dos anos, educar-se como revolucionários profissionais, e «pensará» não somente no trabalho artesanal, mas precisamente nesta educação. A centralização das funções clandestinas da organização não implica, de maneira alguma, a centralização de todas as funções do movimento. A colaboração activa das mais amplas massas na literatura ilegal, longe de diminuir, decuplicará, quando uma «dezena» de revolucionários profissionais centralizar as funções clandestinas dessa actividade. Assim, e só assim, conseguiremos que a leitura da literatura ilegal, a colaboração nela, e mesmo, em certa medida, a sua difusão, deixem quase de ser uma obra clandestina, pois a polícia compreenderá rapidamente quanto são absurdas e impossíveis as perseguições judiciais e administrativas por causa de cada exemplar de publicações distribuídas em milhares de exemplares. E isto é válido não só para a imprensa, mas também para todas as funções do movimento, incluindo as manifestações. A participação não só não ficará prejudicada, mas, pelo contrário, terá muito mais probabilidades de êxito se uma «dezena» de revolucionários profissionais, provados, bem preparados, pelo menos tão bem como é a nossa polícia, centralizar todos os aspectos clandestinos: edição de panfletos, elaboração do plano aproximado, nomeação de um grupo de dirigentes para cada bairro da cidade, cada zona fabril, cada estabelecimento de ensino, etc… A centralização das funções mais clandestinas pela organização dos revolucionários não debilitará, antes reforçará a amplitude e o conteúdo da actividade de uma grande quantidade de outras organizações destinadas ao grande público e, por consequência, o menos regulamentadas e o menos clandestinas possível: sindicatos operários, círculos operários de autodidactas e de leitura de publicações ilegais, círculos socialistas, círculos democráticos para todos os outros sectores da população, etc., etc. Estes círculos, sindicatos e organizações são necessários por toda a parte; é preciso que sejam o mais numerosos e as suas funções o mais variadas possível, mas é absurdo e prejudicial confundir estas organizações com a dos revolucionários, apagar as fronteiras que existem entre elas, extinguir na massa a consciência, já de si incrivelmente obscurecida, de que para «servir» um movimento de massas é necessário dispor de homens que se consagrem especial e inteiramente à acção social-democrata, e que estes homens devem forjar-se com paciência e tenacidade até se converterem em revolucionários profissionais.
… Um revolucionário mole, vacilante nos problemas teóricos, de horizontes limitados, que justifica a sua inércia com a espontaneidade das massas, mais parecido com um secretário de trade-union do que com um tribuno popular, sem um plano audacioso e de grande alcance que imponha respeito até aos seus adversários, inexperiente e inábil na sua arte profissional (a luta contra a polícia política), não é, desculpai, um revolucionário, mas um pobre artesão!
… A nossa tarefa não consiste em advogar que o revolucionário seja rebaixado ao nível de artesão, mas elevar o artesão ao nível do revolucionário.
Qual é o nível de clandestinidade necessária hoje nas diferentes partes do globo? O que significa clandestinidade neste sentido? Feito às ocultas ou ilegal? Porque o trabalho revolucionário que fiz até agora não foi nenhum dos dois (pelo que eu sei). Na Rússia, sei que organizações que chamaram a guerra do que ela é (uma guerra) tiveram que “parar” por ser “errado” chamar o conflito de “guerra”, por exemplo. Será que tais organizações continuaram, mas de forma ilegal e/ou às ocultas? O que é certo é o seguinte: o partido de vanguarda tem que saber operar na legalidade e na ilegalidade, porque os nossos inimigos (a burguesia) é que faz as leis.
Envergadura do trabalho de organização
A
sociedade fornece um número extremamente grande de pessoas aptas para a
“causa”, mas nós não as sabemos utilizar a todas. Neste sentido, o estado
crítico, o estado de transição do nosso movimento, pode ser formulado assim:
Há uma infinidade de homens, porque tanto a classe operária como sectores cada vez mais variados da sociedade fornecem, todos os anos, um número sempre maior de descontentes, que querem protestar, que estão dispostos a cooperar, naquilo que puderem, na luta contra o absolutismo, cujo carácter insuportável, se não é ainda notado por todos, é já sentido por massas cada vez mais extensas e cada vez de forma mais aguda
;Não há homens, porque não há dirigentes, não há chefes políticos, não há talentos organizadores capazes de organizar um trabalho simultaneamente amplo e unificado, coordenado, que permita utilizar todas as forças, mesmo as mais insignificantes. “O crescimento e o desenvolvimento das organizações revolucionárias” estão atrasados, não só em relação ao crescimento do movimento operário, […], mas ainda em relação ao crescimento do movimento democrático geral em todos os sectores do povo.
Se o objetivo não for acabar com uma autocracia e ter uma democracia, de que vale este esquema todo? Outra vez, a teoria de vanguarda serve quando não existe autocracia?
As massas, na sua maioria, não se envolvem em política num período contra-revolucionário (passividade social). A vanguarda serve para encontrar os revolucionários — não existe a consciência de classe para fazer os revolucionários surgirem por si só das massas —, e essa organização, esse partido, deve existir antes da espontaneidade.
Todos os partidos são minorias organizadas. Não são de massas porque as massas não se envolvem em política. Mas fazem o máximo para influenciar as massas. Se não operas na política, um partido oportunista opera por ti e te influência. Olha, a Ucrânia e Rússia a usar as massas para si. A burguesia tem chefes, o proletariado e guiado pelos chefes da burguesia.
Construir o partido vanguarda, é combater a influência desses partidos no proletariado. É precisa a batalha política dentro das massas.
O capitalismo não descansa, e tanto lhe faz se estamos numa “democracia” ou numa autocracia. Domingo à tarde também vão cair bombas na faixa de Gaza.
Hoje
não só os agitadores políticos, mas também os organizadores sociais-democratas
têm de “ir a todas as classes da população”.
Entre
os militares, por exemplo, observa-se ultimamente uma indubitável reanimação do
espírito democrático, em parte como consequência dos combates de rua, cada vez
mais frequentes, com “inimigos” como os operários e os estudantes. E, desde que
as nossas forças o permitam, devemos prestar sem falta a mais séria atenção à
propaganda e à agitação entre os soldados e os oficiais, à criação de
“organizações militares” filiadas no nosso partido.
… Quanto mais pequenas forem as diversas «operações» do trabalho geral, tanto mais pessoas se poderão encontrar capazes de as executar (e completamente incapazes, na maioria dos casos, de serem revolucionários profissionais), tanto mais difícil será para a polícia «pescar» todos estes «militantes com funções parcelares» e tanto mais difícil será montar, a partir da captura de uma pessoa por qualquer ninharia, um «processo» que justifique os gastos do Estado com a «segurança». […] Para agrupar num todo único todas estas pequenas fracções, para não fragmentar com as funções do movimento o próprio movimento e para inspirar ao executante das pequenas funções a fé na necessidade e no valor do seu trabalho, fé sem a qual nunca trabalhará, para tudo isto é necessária, precisamente, uma forte organização de revolucionários experimentados. Com semelhante organização, a fé na força do partido tornar-se-á tanto mais firme e tanto mais extensa quanto mais clandestina for a organização. E na guerra, como se sabe, o mais importante não é só inspirar confiança nas suas próprias forças ao exército próprio, mas também impressionar o inimigo e todos os elementos neutrais; uma neutralidade amistosa pode, às vezes, decidir a contenda. Com semelhante organização, erigida sobre uma base teórica firme e contando com um órgão social-democrata, não haverá que recear que o movimento seja desviado do seu caminho pelos numerosos elementos «estranhos» que a ele tenham aderido… Numa palavra, a especialização pressupõe, necessariamente, a centralização, e, por sua vez, exige-a incondicionalmente.
… Não só os revolucionários em geral estão atrasados em relação ao ascenso espontâneo das massas, mas os próprios operários revolucionários estão em atraso em relação ao ascenso espontâneo das massas operárias. E este facto confirma do modo mais evidente, mesmo do ponto de vista «prático», não só o absurdo mas também o carácter político reaccionário da «pedagogia» com que somos obsequiados com tanta frequência quando se discutem os nossos deveres em relação aos operários. Este facto testemunha que a primeira e mais imperiosa das nossas obrigações é contribuir para a formação de operários revolucionários que, do ponto de vista da sua actividade no partido, estejam ao mesmo nível que os revolucionários intelectuais (sublinhamos: do ponto de vista da sua actividade no partido, porque, noutros aspectos não é, longe disso, tão fácil nem tão urgente, embora necessário, que os operários atinjam o mesmo nível). Por isso, a nossa atenção deve voltar-se principalmente para elevar os operários ao nível dos revolucionários e não para descermos nós próprios infalivelmente ao nível da «massa operária», como querem os «economistas», e infalivelmente ao nível do «operário médio», como quer o Svoboda… Nada mais longe de mim do que a ideia de negar a necessidade de uma literatura popular para os operários e de outra literatura especialmente popular (mas não vulgar, bem entendido) para os operários especialmente atrasados. Mas o que me indigna é essa constante mistura da pedagogia com as questões políticas, com as questões de organização. […] Erguei-vos, portanto, para falar de coisas sérias, e deixai a pedagogia aos pedagogos, e não aos políticos e organizadores!…
Para se preparar plenamente para o seu trabalho, o operário revolucionário deve converter-se também num revolucionário profissional. […] É nosso dever ajudar todo o operário que se distinga pelas suas capacidades a tornar-se um agitador, organizador, propagandista, distribuidor, etc., etc., profissional…
O
proletariado não pode travar uma luta tenaz contra inimigos perfeitamente
adestrados
sem:
- adquirir
experiência e perícia profissional
; - alargar
o seu horizonte e os seus conhecimentos
; - observar de perto
os chefes políticos eminentes de outras localidades e de outros partidos
; - esforçar-se
por se elevar ele próprio ao nível deles e de reunir em si o conhecimento do meio operário e o vigor das convicções socialistas com a competência profissional
.
O
que num país politicamente livre se faz em grande parte por si só
, na
clandestinidade
deve
ser realizado sistematicamente pelas nossas organizações.
… Todo o agitador operário que tenha algum talento, que «prometa», não deve trabalhar onze horas na fábrica. Devemos arranjar maneira de ele viver por conta do partido, de ele poder passar à clandestinidade no momento preciso, de mudar de localidade, porque doutro modo não adquirirá grande experiência, não alargará o seu horizonte, não se poderá manter sequer uns anos na luta contra os gendarmes. Quanto mais amplo e mais profundo for o ascenso espontâneo das massas operárias, tanto mais estas destacam não só agitadores de talento mas também organizadores, propagandistas e militantes «práticos» de talento, «práticos» no melhor sentido da palavra… Quando tivermos destacamentos de operários revolucionários (e, bem entendido, revolucionários de «todas as armas») especialmente preparados por uma longa aprendizagem, nenhuma polícia política do mundo poderá acabar com eles, porque esses destacamentos de homens consagrados de corpo e alma à revolução gozarão igualmente de uma confiança ilimitada das mais vastas massas operárias. E é uma grande falta nossa não «empurrar» bastante os operários para este caminho que é comum a eles e aos «intelectuais», para o caminho da aprendizagem revolucionária profissional, puxando-os com demasiada frequência para trás com os nossos estúpidos discursos sobre o que é «acessível» à massa operária, aos «operários médios», etc.
Neste aspecto, como nos demais, o reduzido alcance do trabalho de organização está indiscutível e intimamente relacionado […] com a redução do alcance da nossa teoria e das nossas tarefas políticas. O culto da espontaneidade dá origem a uma espécie de receio de nos afastarmos, nem que seja um passo, do que é «acessível» às massas, um receio de subir demasiado alto, acima da simples satisfação das suas necessidades directas e imediatas. Não tenham medo, senhores! Lembrem-se que em matéria de organização nos encontramos num nível tão baixo que até é absurda a própria ideia de podermos subir demasiado alto!
A organização de «conjurados» e a «democracia»
O erro dos partidários de «A Vontade do Povo» não foi o de procurar integrar todos os descontentes na sua organização e orientá-la para uma luta decidida contra a autocracia. Pelo contrário, isto constitui o seu grande mérito histórico.
Os Naródnaia,
o
aparecimento de um movimento operário espontâneo de massas
,
impõe-nos
precisamente esta obrigação [de criar uma organização de revolucionários tão boa
como a dos partidários de «Terra e Liberdade», ou até incomparavelmente
melhor], porque a luta espontânea do proletariado não se transformará na sua
verdadeira «luta de classe» enquanto não for dirigida por uma forte organização
de revolucionários.
Protestámos
e protestaremos sempre, evidentemente, contra a redução da luta política às
dimensões de uma conjura
, sem negar
a
necessidade de uma firme organização revolucionária.
Pela sua forma, uma tal organização revolucionária firme num país autocrático pode também ser chamada organização «de conjurados», porque a palavra francesa «conspiração» equivale em russo a «conjura» e o carácter conspirativo é imprescindível, no mais elevado grau, a uma organização deste tipo. O carácter conspirativo é de tal maneira condição imprescindível numa organização deste género que todas as outras condições (número de membros, sua escolha, suas funções, etc.) têm de estar de acordo com ela. Seria, por isso, de uma extrema candura recear que nos acusassem, aos sociais-democratas, de querer criar uma organização de conjurados. Todo o inimigo do «economismo» deve orgulhar-se dessa acusação, bem como da acusação de partilhar as ideias de «A Vontade do Povo».
Uma
organização tão poderosa e tão rigorosamente secreta, que concentra nas suas
mãos todos os fios da actividade conspirativa, organização necessariamente
centralista,
de
combate
,
pode
lançar-se numa batalha impensada que pode terminar numa derrota… Mas, num
problema destes, é impossível limitarmo-nos a considerações abstractas, porque
todo o combate implica uma possibilidade abstracta de derrota, e não existe
outro meio de diminuir essa possibilidade do que preparar organizadamente o
combate.
Naquelas condições da autocracia,
uma
forte organização revolucionária é absolutamente necessária precisamente para
dar estabilidade ao movimento e preservá-lo da possibilidade de ataques
irreflectidos. […] Só uma organização combativa centralizada, que aplique com
firmeza a política social-democrata e que satisfaça, por assim dizer, todos os
instintos e aspirações revolucionárias, pode preservar o movimento de um ataque
irreflectido e preparar um ataque que prometa êxito.
E o
princípio
democrático
?
O
«amplo princípio democrático» implica duas condições imprescindíveis:
Uma publicidade completa
que não fique limitada aos membros da organização
;O carácter electivo de todos os cargos.
Que
sentido tem propor um “amplo princípio democrático”, quando a condição
fundamental deste princípio é irrealizável por uma organização secreta?
E numa situação de
necessidade
do mais severo secretismo e da mais severa (e, por consequência, mais restrita)
selecção de filiados [sublinham] um “amplo princípio democrático”! A
isto chama-se dar na ferradura em vez de dar no cravo.
O
carácter electivo
,
nos
países que gozam de liberdade política, esta condição subentende-se por si
própria
:
E como toda a arena política está completamente descoberta para todos, como a cena para os espectadores de um teatro, o que se aceita ou não se aceita, se se presta apoio ou não, são coisas sabidas por todos através dos jornais e das reuniões públicas. Toda a gente sabe que determinado político começou desta ou daquela maneira, seguiu esta ou aquela evolução, teve este ou aquele comportamento num momento difícil da sua vida, se distingue, em geral, por estas ou aquelas qualidades: portanto, é natural que todos os membros do partido possam, com conhecimento de causa, eleger ou não este ou aquele dirigente para um determinado cargo do partido. O controlo geral (no sentido literal do termo) de cada passo do membro do partido ao longo da sua carreira política cria um mecanismo de acção automática, cujo resultado é aquilo que em biologia se chama a «sobrevivência do mais apto». A «selecção natural», produto da completa publicidade, do carácter electivo e do controlo geral, assegura que, ao fim e ao cabo, cada figura política ocupe «o seu lugar», se encarregue do trabalho mais adequado às suas forças e às suas aptidões, sofra, ele próprio, as consequências dos seus erros, e demonstre aos olhos de todos a sua capacidade para reconhecer as suas faltas e evitá-las.
Na
moldura da nossa autocracia
:
- Não é concebível
que “todo aquele que aceita os princípios do programa do partido e ajuda o partido na medida das suas forças” controle todos os passos dados pelos revolucionários clandestinos
; - Nem
que todos elejam uma ou outra pessoa entre estes últimos, quando, no interesse do seu trabalho, o revolucionário é obrigado a ocultar a sua verdadeira personalidade a nove décimos destes “todos”
.
Uma
“ampla democracia” de uma organização de partido, nas trevas da autocracia,
quando são os gendarmes quem selecciona, não é mais do que um brinquedo inútil
e prejudicial:
inútil porque, na prática, nunca nenhuma organização revolucionária pôde aplicar uma ampla democracia, nem a pode aplicar por mais que o deseje
;prejudicial porque as tentativas para aplicar, na prática, um “amplo princípio democrático” só tornam mais fácil à polícia lançar as grandes vagas de prisões e perpetuam o trabalho artesanal imperante, distraindo o pensamento dos militantes práticos da séria e imperiosa tarefa de se forjarem como revolucionários profissionais, desviando-o para a redacção de pormenorizados estatutos “no papel” sobre sistemas eleitorais.
Só no estrangeiro, onde frequentemente se reúnem homens que não têm possibilidades de encontrar um trabalho real e verdadeiro, se pôde desenvolver aqui e ali, sobretudo em pequenos grupos, esta mania de «brincar à democracia».
O
único princípio de organização sério a que se devem subordinar os dirigentes do
nosso movimento deve ser: o mais severo secretismo, a mais severa selecção dos
filiados, e a preparação de revolucionários profissionais. Estando reunidas
estas qualidades, estará assegurada uma coisa mais importante do que a
“democracia”, a saber: a plena e fraternal confiança mútua entre os
revolucionários.
A
candura, se alimenta também da confusão de ideias acerca do que é a
democracia
:
- Na
democracia primitiva
:Foi necessária uma longa experiência histórica para que os operários compreendessem […] a necessidade, por um lado, de existirem instituições representativas e, por outro, a necessidade de funcionários profissionais
;Foram necessários alguns casos de falência de caixas sindicais para fazer compreender aos operários que a relação proporcional entre as quotizações que pagavam e os subsídios que recebiam não podia ser decidida só por votação democrática, mas que exigia, além disso, o conselho de um perito de seguros
;
Sobre o parlamentarismo e a legislação popular
:- É ridículo exigir
que os “jornais populares sejam redigidos directamente pelo povo”
; prova a necessidade de jornalistas, de parlamentares, profissionais, etc., para dirigir de modo social-democrata a luta de classe do proletariado
;o “socialismo de anarquistas e de literatos” que, “procurando o efeito”, exaltam a legislação directa por todo o povo e não compreendem até que ponto é apenas relativa a sua aplicação na sociedade contemporânea.
- É ridículo exigir
… Nada está mais longe de nós, bem entendido, do que a ideia de censurar por isso os militantes práticos, que tiveram muito pouca possibilidade de conhecer a teoria e a prática das organizações efectivamente democráticas…
O trabalho à escala local e à escala de toda a Rússia
Sobre a
correlação
entre o trabalho local e o trabalho à escala de toda a Rússia
, Lénine diz
necessário
deslocar um pouco o centro de gravidade para o trabalho à escala de toda a
Rússia
, e que isso
não
enfraquecerá, mas pelo contrário dará maior solidez aos nossos vínculos e maior
estabilidade à nossa agitação local.
Ao invés de termos vários órgãos locais a publicar um número por mês —
prova
evidente do nosso trabalho artesanal
e do
atraso
da nossa organização revolucionária em relação ao crescimento espontâneo do
movimento
—,
se
a mesma quantidade de números de jornais tivesse sido publicada, não por
grupos locais dispersos mas por uma organização única, não só teríamos
economizado uma quantidade enorme de forças, mas teríamos assegurado ao nosso
trabalho infinitamente mais estabilidade e continuidade.
Em geral,
é
melhor ter jornais locais do que não ter nenhum. Isto, evidentemente, é
perfeitamente correcto
.
Os
jornais locais são, na maioria dos casos, instáveis do ponto de vista dos
princípios, carecem de importância política e são excessivamente dispendiosos
quanto ao consumo de energias revolucionárias e totalmente insatisfatórios do
ponto de vista técnico (não falo, é claro, da técnica tipográfica, mas da
frequência e da regularidade da publicação)
.
… Uma organização local, por si só, não está realmente em condições de assegurar a estabilidade de princípios do seu jornal e de o colocar ao nível de um órgão político, não está em condições de reunir e utilizar materiais suficientes para abordar toda a nossa vida política…
Nos países livres, pode existir justificação para os jornais locais por:
serem baratos pelo facto de serem feitos por operários locais
;e a possibilidade de oferecer à população uma informação melhor e mais rápida
.
Em clandestinidade, os jornais locais:
custam demasiado caro no que se refere a energias revolucionárias
;aparecem com intervalos muito espaçados pela simples razão de que um jorna ilegal, por pequeno que seja, exige um enorme aparelho clandestino unicamente possível num grande centro fabril e impossível de montar numa oficina artesanal
;quando o aparelho clandestino é rudimentar, […] a polícia aproveita o aparecimento e a divulgação de um ou dois números para fazer prisões em massa, deixando as coisas em tal estado que é necessário começar tudo de novo.
… Um bom aparelho clandestino exige uma boa preparação profissional dos revolucionários e a mais consequente divisão do trabalho, e estas duas condições são absolutamente irrealizáveis numa organização local isolada, por mais forte que seja num dado momento…
Não
falemos já dos interesses gerais de todo o nosso movimento (uma educação
socialista e política dos operários baseada em princípios firmes); também os
interesses especificamente locais são melhor servidos por órgãos não locais.
[…] Se todas as forças locais […] tivessem trabalhado para um só jornal:
ter-se-iam publicado, sem dificuldade,
muitos mais jornais;teriam reflectido de forma mais completa as particularidades do movimento de carácter puramente local.
… Para as denúncias dos abusos que se cometem nas fábricas locais sempre tivemos, e devemos continuar a ter sempre, folhas volantes, mas no que respeita ao jornal devemos elevá-lo e não rebaixá-lo ao nível das folhas de fábrica. Para um «jornal» necessitamos de denúncias não tanto dos «pequenos factos», mas dos grandes defeitos típicos da vida fabril, denúncias que tenham como base exemplos de particular relevo e que possam, por isso, interessar a todos os operários e a todos os dirigentes do movimento, que possam enriquecer efectivamente os seus conhecimentos, alargar o seu horizonte, dar início ao despertar de uma nova região, uma nova camada profissional de operários.
… Os trinta números publicados em dois anos e meio correspondem, segundo vimos na mesma fonte, a seis cidades. Isto a dá a cada cidade em média um número de jornal em cada meio ano! Supondo mesmo que o nosso frívolo publicista triplica, na sua hipótese, o rendimento do trabalho local (o que seria, sem dúvida, inexacto em relação a uma cidade média, porque no quadro do trabalho artesanal é impossível aumentar consideravelmente o rendimento), não conseguiríamos, contudo, mais do que um número em cada dois meses, quer dizer, uma situação nada parecida com «agarrar imediatamente, ainda quentes, as notícias». Mas bastaria que dez organizações locais se unissem e encarregassem os seus delegados da função activa de fazer um jornal comum, para se tornar possível «recolher» por toda a Rússia não os pequenos factos, mas abusos efectivamente notáveis e típicos, e isto cada quinze dias. […] E quanto a surpreender o inimigo em flagrante delito, se se toma isto a sério e não como uma frase bonita, um jornal clandestino não pode, em geral, nem sequer pensar nisso: isto só é acessível a uma folha volante, porque o prazo máximo para surpreender assim o inimigo não passa, na maioria dos casos, de um ou dois dias…
O
operário não vive só na fábrica, vive também na cidade
. O jornal operário
não deve passar em silêncio os assuntos da cidade em geral,
problemas
das dumas urbanas, dos hospitais urbanos, das escolas urbanas
…
Se
em “todo o lugar com uma concentração um tanto significativa de operários” se
publicassem, de facto, jornais com uma secção municipal tão pormenorizada
:
degenerar-se-ia inevitavelmente, dadas as nossas condições russas, em verdadeiras mesquinharias
;enfraqueceria a consciência da importância de um assalto revolucionário geral
, da classe dominada,contra a autocracia
;reforçar-se-iam os rebentos muito resistentes — mais dissimulados ou reprimidos do que arrancados — de uma tendência celebrizada pela famosa frase sobre os revolucionários que falam demasiado do parlamento que não existe e muito pouco das dumas urbanas que existem.
Para
que o trabalho de esclarecimento dos assuntos urbanos fique organizado de acordo
com a orientação adequada a todo o nosso trabalho é preciso, para começar,
que esta orientação esteja totalmente elaborada, firmemente definida, e não só
por raciocínios, mas também por um sem-número de exemplos, para poder adquirir a
solidez da tradição. Estamos muito longe de ter isto, e é o que precisamente
nos faz falta para começar, antes de se poder pensar numa abundante imprensa
local e falar dela.
… Para escrever com verdadeiro acerto, de um modo interessante, sobre os assuntos da cidade, é preciso conhecê-los bem, e não apenas através dos livros. Mas […] quase não há em absoluto sociais-democratas que tenham esse conhecimento. Para escrever num jornal (e não em brochuras populares) sobre assuntos da cidade ou de Estado é necessário dispor de uma documentação actualizada, variada, recolhida e elaborada por uma pessoa entendida. Ora, para recolher e elaborar tal documentação não basta a «democracia primitiva» de um círculo primitivo, no qual todos fazem de tudo e se divertem brincando aos referendos. Para isso é preciso um estado-maior de especialistas escritores, de especialistas correspondentes, um exército de repórteres sociais-democratas, que estabeleçam relações em toda a parte, sabendo penetrar em todos os «segredos de Estado» (dos quais o funcionário russo tanto se gaba e sobre os quais dá à língua tão facilmente) sabendo deslizar por todos os «bastidores», um exército de homens obrigados «pelas suas funções» a ser omnipresentes e omniscientes. E nós, partido de luta contra toda a opressão económica, política, social e nacional, podemos e devemos encontrar, reunir, formar, mobilizar e pôr em marcha este exército de homens omniscientes…
A
predominância da imprensa local sobre a central é uma manifestação
:
De penúria, quando o movimento não tem ainda forças para um trabalho em grande escala, quando vegeta ainda dentro do trabalho artesanal e quase se afoga nos “pequenos factos da vida fabril”
;De luxo, quando o movimento já dominou completamente a tarefa das denúncias em todos os sentidos e da agitação em todos os sentidos, de modo que, além do órgão central, se tornam necessários numerosos órgãos locais.
Enquanto
a
maioria das organizações locais
não pense na criação de um órgão
internacional
e
trabalhe principalmente para ele
,
não
poderemos publicar nem um só jornal que seja pelo menos capaz de
proporcionar efectivamente ao movimento uma agitação em todos os sentidos
através da imprensa. E quando isto acontecer, estabelecer-se-ão por si próprias
as relações normais entre o órgão central indispensável e os indispensáveis
órgãos locais.
… A luta económica — já o dissemos inúmeras vezes — é uma luta sindical, e por isso exige o agrupamento dos operários por profissões, e não só pelo lugar de trabalho. E esta união sindical é tanto mais urgentemente necessária quanto maior for a rapidez com que avança o agrupamento dos nossos patrões em toda a espécie de sociedades e sindicatos patronais…
Todo
o jornal social-democrata deve ter uma secção dedicada à luta sindical
(económica). Mas o crescimento do movimento sindical obriga-nos a pensar também
numa imprensa sindical.
Embora que na clandestinidade, isso trata-se de um
luxo.
A
forma adequada às condições do trabalho clandestino, e já agora imprescindível,
de imprensa sindical deveriam ser entre nós as brochuras sindicais. Nelas
deveriam ser recolhidos e agrupados sistematicamente materiais legais e
ilegais sobre a questão das condições de trabalho em cada profissão
sobre:
as diferenças que a esse respeito existem entre os diversos pontos
do mundo;as principais reivindicações dos operários de uma dada profissão
;as deficiências da legislação que a ela se refere
;os casos mais relevantes da luta económica dos operários dessa profissão
;os começos, a situação actual e as necessidades da sua organização sindical
;- …
… Não é exagerado dizer que se pode mais ou menos fazer uma brochura sindical só com materiais legais, enquanto é impossível fazê-la só com materiais ilegais. Recolhendo entre os operários materiais ilegais sobre problemas…, desperdiçamos inutilmente uma quantidade enorme de forças de um revolucionário (que poderia ser facilmente substituído neste trabalho por um militante legal), e apesar de tudo não obtemos nunca bons materiais, porque os operários, que geralmente só conhecem uma única secção de uma grande fábrica e quase sempre só sabem os resultados económicos, mas não as condições e normas gerais do seu trabalho, não podem adquirir os conhecimentos que geralmente possuem os empregados da fábrica, inspectores, médicos, etc., e que em enorme quantidade estão dispersos em artigos de jornais e publicações especiais de carácter industrial, sanitário, dos zemstvos, etc.
[…]
Quanto mais energicamente desenvolvermos a luta revolucionária, tanto mais o governo se verá obrigado a legalizar parte do trabalho «sindical», tirando-nos assim de cima parte da carga que sobre nós pesa.
Estas
brochuras
:
libertariam a nossa imprensa social-democrata de uma imensa quantidade de pormenores sindicais que só interessam especialmente aos operários de uma dada profissão
;fixariam os resultados da nossa experiência na luta sindical, conservariam os materiais recolhidos que hoje se perdem literalmente na imensa quantidade de folhas e de crónicas soltas e sintetizariam esses materiais
;poderiam servir de uma espécie de guia para os agitadores, uma vez que as condições de trabalho variam com relativa lentidão, as reivindicações fundamentais dos operários de uma dada profissão são extraordinariamente estáveis […] e um resumo destas reivindicações e necessidades poderia servir, durante anos inteiros, de excelente manual para a agitação económica em localidades atrasadas ou entre camadas atrasadas de operários; exemplos de greves vitoriosas numa região, dados sobre um nível de vida mais elevado, sobre melhores condições de trabalho numa localidade, incitariam também os operários doutras localidades a novas e novas lutas
;tomando a iniciativa de sintetizar a luta sindical e reforçando assim os vínculos do movimento sindical russo com o socialismo, a social-democracia preocupar-se-ia, ao mesmo tempo, com que o nosso trabalho trade-unionista ocupasse um lugar nem demasiado reduzido nem demasiado grande no conjunto do nosso trabalho social-democrata.
«Plano» de um Jornal Político para Toda a Rússia
Pode um jornal ser um organizador colectivo?
Um jornal internacional é um meio de como precisamente havemos de
educar
fortes organizações políticas
,
e
educar com êxito!
É necessário
apelar
para a formação de uma organização revolucionária capaz de unir todas as forças
e de dirigir o movimento, não só de uma maneira nominal, mas na realidade,
quer dizer, capaz de estar sempre disposta a apoiar todo o protesto e toda a
explosão, aproveitando-os para multiplicar e robustecer as forças de combate
aptas para a batalha decisiva
… O que nós precisamos não é de resolver o problema em princípio, mas sim na prática; é necessário estabelecer imediatamente um plano determinado para a construção, para que todos possam, agora mesmo e de todos os lados, iniciar a construção…
… Tão-pouco as massas aprenderão jamais a travar a luta política enquanto nós não ajudarmos a formação dos dirigentes para esta luta, procedentes tanto dos operários cultos como dos intelectuais; e estes dirigentes podem formar-se, exclusivamente, iniciando-se na apreciação sistemática e quotidiana de todos os aspectos da nossa vida política; de todas as tentativas de protesto e de luta das diferentes classes e por diferentes motivos. Por isso, falar de «educar organizações políticas» e, ao mesmo tempo, opor o «trabalho da papelada» de um jornal político ao «trabalho político vivo no plano local» é simplesmente ridículo!…
É necessário
“começar”
por incitar as pessoas a pensar em tudo isto, a resumir e sintetizar todos e
cada um dos indícios de efervescência e de luta activa. […] O «trabalho
político activo» só pode iniciar-se exclusivamente por uma agitação política
viva, coisa impossível sem um jornal [internacional] que apareça frequentemente
e se difunda com regularidade.
A
organização de um jornal político [internacional] deve ser o fio
fundamental, seguindo o qual podemos invariavelmente desenvolver, aprofundar e
alargar esta organização (isto é, a organização revolucionária, sempre disposta
a apoiar todo o protesto e toda a explosão).
… Façam o favor de nos dizer: quando os pedreiros colocam em diferentes pontos as pedras de um edifício enorme e sem precedentes, será um trabalho «de papelada» esticar um fio que os ajuda a encontrar o lugar justo para as pedras, que lhes indica a finalidade da obra comum, que lhes permite colocar não só cada pedra, mas mesmo cada bocado de pedra, que, ao somar-se aos precedentes e aos seguintes, formará a linha acabada e total? E não vivemos nós, por acaso, um momento desta índole na nossa vida de partido, quando temos pedras e pedreiros, mas nos falta precisamente o fio, visível a todos e pelo qual todos se podem guiar?…
… Toda a questão «se move num círculo vicioso», pois toda a vida política é uma cadeia sem fim, composta de uma série infinita de elos. Toda a arte de um político consiste precisamente em encontrar e agarrar-se com força precisamente ao elozito que menos lhe possa ser arrancado das mãos, que seja o mais importante num dado momento e que melhor garanta ao seu possuidor a posse de toda a cadeia. Se tivéssemos um destacamento de pedreiros experimentados, que trabalhassem de modo tão harmónico que, mesmo sem o fio, pudessem colocar as pedras precisamente onde é necessário (falando abstractamente isto não é de modo algum impossível), poderíamos talvez agarrarmo-nos também a um outro elo. Mas a infelicidade consiste precisamente em ainda termos necessidade de pedreiros experimentados e que trabalhem de modo tão harmónico, em as pedras serem colocadas frequentemente ao acaso, sem serem alinhadas pelo fio comum, de forma tão desordenada que o inimigo as dispersa com um sopro como se fossem grãos de areia e não pedras.
… O jornal não é apenas um propagandista colectivo e um agitador colectivo, mas também um organizador colectivo. Neste último sentido, pode ser comparado aos andaimes que se levantam à volta de um edifício em construção, marcando-lhe os contornos, facilitando as comunicações entre os construtores, ajudando-os a repartir entre si o trabalho e a observarem os resultados gerais alcançados pelo trabalho organizado… Os andaimes não são imprescindíveis para a própria casa: são feitos com um material de qualidade inferior, são utilizados durante um período relativamente curto e lançados ao fogo uma vez terminado o edifício, ainda que apenas nas suas grandes linhas. No que diz respeito à construção de organizações revolucionárias, a experiência mostra que se podem, por vezes, construir sem andaimes (recordai a década de 70). Mas agora não podemos sequer imaginar a possibilidade de construir sem andaimes o edifício de que temos necessidade.
É necessário distinguir
acções
militares de um exército mobilizado e […] um plano para mobilizar esse
exército
:
jornais locais
:mesmo que fosse possível uma organização mais ou menos satisfatória de “uma abundante imprensa local”…, os órgãos locais tão-pouco poderiam “concentrar e organizar” todas as forças dos revolucionários para uma ofensiva geral contra a autocracia, para dirigir a luta única. Não esqueçais que aqui só se trata do alcance “concentrador”, organizador, do jornal
;preparação de manifestações
:só um exército já “concentrado e organizado” pode “preparar” manifestações (que até agora, na imensa maioria dos casos, têm sido completamente espontâneas), e que o que precisamente não sabemos é concentrar e organizar
;trabalho entre os desempregados
:também representa uma das acções militares de um exército mobilizado e não um plano para mobilizar esse exército
;
… No campo quase não há pedreiros e há forçosamente que encorajar todo aquele que nos comunique mesmo os factos mais habituais, na esperança de que isto multiplicará o número de colaboradores neste terreno e nos ensinará a todos a escolher, finalmente, os factos realmente relevantes. Mas há tão pouco material de ensino que, se não o sintetizamos à escala de toda a Rússia, não há absolutamente nada que aprender…
… Todos estarão certamente de acordo em que «se unificássemos» os círculos isolados — digamos, de bairro — de uma cidade seriam necessários para isso organismos comuns, isto é, não só a denominação comum de «união» mas um trabalho realmente comum, um intercâmbio de materiais, de experiência, de forças, uma distribuição de funções, não já só por bairros mas segundo as especialidades de todo o trabalho urbano. […] E necessário, é incondicionalmente necessário, antes de mais, alargar este campo de acção, criar uma ligação efectiva de união entre as cidades, com base num trabalho regular e comum, porque o fraccionamento deprime as pessoas que «estão metidas num buraco» (expressão do autor de uma carta dirigida ao Iskra), sem saber o que se passa no mundo, com quem têm de aprender, como adquirir experiência de modo a satisfazer o seu desejo de uma ampla actividade. E eu continuo a insistir que esta ligação efectiva de união só pode começar a ser criada com base num jornal comum que seja, para toda a Rússia, a única empresa regular nacional a fazer o balanço de toda a actividade, nos seus aspectos mais variados, incitando dessa maneira as pessoas a seguir infatigavelmente para a frente, por todos os numerosos caminhos que levam à revolução, como todos os caminhos levam a Roma. Se queremos a unificação não só em palavras, é necessário que cada círculo local dedique imediatamente, suponhamos um quarto das suas forças, a um trabalho activo para a obra comum. E o jornal mostra-lhe imediatamente os contornos gerais, as proporções e o carácter da obra; mostra-lhe quais são as lacunas que mais se notam em toda a actividade geral da Rússia, onde é que não existe agitação, onde são débeis as ligações, quais são as engrenagens do enorme maquinismo geral que este ou aquele círculo poderia reparar ou substituir por outras melhores. Um círculo que ainda não tenha trabalhado e que não procura senão trabalho poderia começar já, não como artesão na sua pequena oficina isolada e que não conhece nem o desenvolvimento da «indústria» anterior a ele nem o estado geral de determinadas formas de produção industrial, mas como colaborador de uma vasta empresa, que reflecte todo o impulso revolucionário geral contra a autocracia.
A
ligação efectiva começaria já a ser criada através da simples função de difusão
do jornal
:
as relações entre as cidades sobre assuntos revolucionários
converter-se-iam em regra e, naturalmente, assegurariam não só a difusão do jornal, mas também (o que é muito mais importante) o intercâmbio de experiência, de materiais, de forças e de recursos. Imediatamente o trabalho de organização ganharia uma envergadura muito maior
;As denúncias políticas e económicas que se recolhessem por toda a Rússia alimentariam intelectualmente os operários de todas as profissões e de todos os graus de desenvolvimento
, enriquecendo o trabalho local;Cada explosão, cada manifestação, seria apreciada e discutida em todos os seus aspectos e em todos os confins da Rússia, fazendo surgir o desejo de não ficar para trás, de fazer melhor que os outros (nós, os socialistas, não excluímos de modo nenhum toda a emulação, toda a «concorrência», em geral!)
, prevenindo a espontaneidade;a polícia tropeçaria com muito maiores dificuldades para chegar até «à raiz», já que não se saberia em que localidade haveria que procurá-la
;um trabalho comum e regular ensinaria os homens a fazer concordar em cada caso concreto a força de um ataque com o estado de forças deste ou daquele destacamento do exército comum…, e facilitaria o «transporte» de um lugar para outro não só das publicações, mas também das forças revolucionárias.
à custa do partido, os militantes habituar-se-iam a viver inteiramente por conta do partido, a tornar-se revolucionários profissionais, a formar-se como verdadeiros chefes políticos.
… Este jornal seria uma parte de um gigantesco fole de uma forja que atiçasse cada centelha da luta de classes e da indignação do povo, convertendo-a num grande incêndio. Em torno deste trabalho, em si muito inofensivo e muito pequeno ainda, mas regular e comum no pleno sentido da palavra, concentrar-se-ia sistematicamente e instruir-se-ia o exército permanente de lutadores experimentados. Sobre os andaimes desta obra comum de organização rapidamente veríamos subir e destacar-se, de entre os nossos revolucionários, os Jeliábov sociais-democratas; de entre os nossos operários, os Bebel russos, que se poriam à cabeça do exército mobilizado e levantariam todo o povo para acabar com a ignomínia e a maldição da Rússia. É com isto que é preciso sonhar!
Há desacordos e desacordos — escrevia Píssarev sobre o desacordo entre os sonhos e a realidade. — Os meus sonhos podem ultrapassar o curso natural dos acontecimentos ou podem desviar-se para um lado onde o curso natural dos acontecimentos não pode nunca chegar. No primeiro caso, os sonhos não produzem nenhum dano, e podem até apoiar e reforçar as energias do trabalhador… Em sonhos desta índole, nada existe que possa deformar ou paralisar a força do trabalho. Bem pelo contrário. Se o homem estivesse completamente privado da capacidade de sonhar assim, se não pudesse de vez em quando adiantar-se e contemplar em imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, eu não poderia, de maneira alguma, compreender que móbil levaria o homem a iniciar e levar a seu termo vastos e penosos empreendimentos nas artes, nas ciências e na vida prática… O desacordo entre os sonhos e a realidade nada tem de nocivo, sempre que a pessoa que sonhe acredite seriamente no seu sonho, observe atentamente a vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, de uma maneira geral, trabalhe escrupulosamente para a realização das suas fantasias. Quando existe um contacto entre o sonho e a vida, tudo vai bem.
— D. I. Píssarev Erros de Um Pensamento Imaturo
De que tipo de organização precisamos?
A
nossa “táctica-plano” consiste em rejeitar o apelo imediato ao assalto, em
exigir que se organize «o assédio regular à fortaleza inimiga», ou, por outras
palavras, em exigir que todos os nossos esforços tenham como objectivo reunir,
organizar e mobilizar um exército regular.
Hegel disse algures que todos os grandes acontecimentos e personagens da história universal se verificam, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se, porém, de acrescentar: uma vez como tragédia e outra como farsa.
— K. Marx O 18 de Brumário de Louis Bonaparte
Se
o original de um acontecimento histórico é uma tragédia, a sua cópia mais não é
do que uma farsa.
… O terror excitante é uma tolice; falar em organizar precisamente os operários médios numa ampla organização de jornais locais significa escancarar as portas ao «economismo». É preciso falar de uma organização de revolucionários única para toda a Rússia e não será tarde falar dela até ao momento em que começar o verdadeiro assalto, e não um assalto no papel.
[…]
… Precisamente porque a «multidão não é nossa», é insensato e indecente dar gritos de «assalto» imediato, já que o assalto é um ataque de um exército regular e não uma explosão espontânea da multidão. É precisamente porque a multidão pode envolver e desalojar o exército regular que se torna sem falta necessário que todo o nosso trabalho de «organização extraordinariamente sistemática» do exército regular ande a par do ascenso espontâneo, porque quanto mais conseguirmos esta organização, tanto mais provável será que o exército regular não seja envolvido pela multidão, mas marche à frente dela, à sua cabeça. Nadéjdine engana-se, porque imagina que este exército sistematicamente organizado se ocupa de coisas que o afastam da multidão, enquanto, na realidade, se ocupa exclusivamente de uma agitação política geral e multiforme, isto é, precisamente de um trabalho que aproxima e funde num todo a força destruidora espontânea da multidão e a força destruidora consciente da organização dos revolucionários…
Os
ortodoxos
têm que
desalojar
definitivamente os críticos das suas posições!! […] Durante a revolução nos
farão falta os resultados da luta teórica contra os críticos para lutar
resolutamente contra as suas posições práticas!
Corre precisamente menos riscos de deixar passar despercebida a revolução quem, como faz o Iskra, coloca no lugar principal do seu programa, de toda a sua táctica, de todo o seu trabalho de organização, a agitação política entre todo o povo…
Só
uma tal organização assegurará à organização de combate social-democrata a
flexibilidade indispensável, isto é
:
A capacidade de se adaptar imediatamente às mais variadas condições de luta, que mudam rapidamente;
Saber «por um lado, evitar as batalhas em campo aberto contra um inimigo que tem uma superioridade esmagadora de forças, quando este concentra toda a sua força num ponto, e, por outro lado, aproveitar a lentidão de movimentos desse inimigo para o atacar no local e no momento em que menos espera ser atacado»
;Quando o trabalho comum, que sofre as consequências das vagas de prisões, está à vista de toda a gente, os novos círculos podem surgir e pôr-se em contacto com esse organismo central ainda mais rapidamente
;Uma rede de agentes, que se forme por si própria no trabalho de organização e de difusão de um jornal comum, não teria de «esperar de braços cruzados» a palavra de ordem da insurreição, mas faria precisamente um trabalho regular que lhe garantiria, em caso de insurreição, as maiores probabilidades de êxito
:Este trabalho reforçaria os laços de união tanto com as mais amplas massas operárias como com todos os sectores descontentes com a autocracia
;Com base nesta obra formar-se-ia a capacidade de avaliar acertadamente a situação política geral e, por consequência, a capacidade para escolher o momento adequado para a insurreição
;Esta obra habituaria todas as organizações locais a fazerem-se eco, simultaneamente, de todos os problemas, incidentes ou acontecimentos políticos que apaixonam toda a Rússia, a responder a esses “acontecimentos” da maneira mais enérgica, mais uniforme e mais conveniente possível; e, no fundo, a insurreição é a “resposta” mais enérgica, mais uniforme e mais conveniente de todo o povo ao governo
;Este trabalho, por fim, habituaria todas as organizações revolucionárias, em todos os cantos da Rússia, a manter entre si as relações mais constantes e ao mesmo tempo mais conspirativas, relações que criariam a unidade efectiva do partido; e sem estas relações não é possível discutir colectivamente um plano de insurreição, nem adoptar em vésperas desta última as medidas preparatórias indispensáveis, medidas que devem ser mantidas no mais rigoroso segredo.
O conteúdo fundamental das actividades da organização do nosso partido, o foco destas actividades deve consistir num trabalho que é possível e necessário tanto durante o período da explosão mais violenta como durante o da calma mais completa, a saber: um trabalho de agitação política unificada em toda a Rússia, que lance luz sobre todos os aspectos da vida e se dirija às mais amplas massas… A organização que se formar por si mesma em torno desse jornal, a organização dos seus colaboradores (no sentido lato do termo, isto é, de todos aqueles que trabalham para ele) estará precisamente disposta a tudo, desde salvar a honra, o prestígio e a continuidade do partido nos momentos de maior «depressão» revolucionária, até preparar, fixar e levar à prática a insurreição armada de todo o povo.
A
organização que se formar por si mesma em torno desse jornal
. Mas e se
existem dois jornais tecnicamente com o mesmo fim? Como funcionaria a junção? O
texto tem um suplemento: «Tentativa para fundir o “Iskra” com a “Rabótcheie
Dielo”». Mas se entendi direito, fala mais sobre a tentativa para que não se
separassem (o que se tornou inevitável).
Qual seria a regularidade ideal de sair um novo jornal? O jornal tem que ter traduções. Sair num dia em específico que fique na cabeça das pessoas, como, por exemplo, o primeiro do mês. É um objetivo que o jornal seja quinzenal, por exemplo, ou apenas que tenha mais conteúdo e páginas? Talvez quinzenal menos gente compraria e teria gastos maiores para o partido. Ou aumentar a frequência não é tão importante assim porque se algo tem que ser partilhado com as massas imediatamente, existem as folhas volantes. Outro objetivo claro é que o jornal chegue a mais gente (o nível internacional seria o objetivo final, e a partir daí, seria possível criar jornais mais “locais” imagino).
O objetivo seria que o jornal fosse o The Economist do proletariado.
Mais sobre o papel do jornal, parece que Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás de Lénine é um bom texto.
Conclusões
… A consciência dos dirigentes cedeu perante a envergadura e a força do ascenso espontâneo; entre os sociais-democratas predominava já um outro período - o período dos militantes formados quase exclusivamente no espírito da literatura marxista «legal», coisa tanto mais insuficiente quanto mais alto era o nível de consciência que deles exigia a espontaneidade das massas. Os dirigentes não só são ultrapassados, quer no sentido teórico («liberdade de crítica») quer no terreno prático («trabalho artesanal») como procuram defender o seu atraso recorrendo a toda a espécie de argumentos retumbantes. A social-democracia era rebaixada ao nível do trade-unionismo, tanto pelos brentanistas da literatura legal como pelos seguidistas da ilegal…
… O que caracteriza este período não é o olímpico desprezo pela prática por parte de qualquer admirador do «absoluto», mas precisamente a união de um praticismo mesquinho com a mais completa despreocupação em relação à teoria. Os heróis deste período, mais do que negar abertamente «as grandes palavras», aviltavam-nas: o socialismo científico deixou de ser uma teoria revolucionária integral, convertendo-se numa mistura, à qual se acrescentavam «livremente» o conteúdo de todo o novo manual alemão; a palavra de ordem «luta de classes» não conduzia a uma actividade cada vez mais ampla, cada vez mais enérgica, mas servia de amortecedor, já que «a luta económica está intimamente ligada à luta política»; a ideia do partido não servia para incitar à criação de uma organização de combate de revolucionários, mas justificava uma espécie de «burocratismo revolucionário» e uma tendência pueril para se brincar às formas «democráticas»…
[…]
Em jeito de exortação a esta «rendição» e resumindo o que acabamos de expor, podemos dar à pergunta: que fazer? a breve resposta: Liquidar o terceiro período.
Futuro
Foi-me sugerido O Estado e a Revolução, que fala sobre a democracia de Estado, e O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, ambos de Lénine.
Talvez seja interessante ler os contemporâneos de que Lénine criticava, e aqueles que fizeram no futuro parte dos Меньшевики, e os seus textos como resposta a este panfleto (Martínov, por exemplo). Mas não o tenciono fazer porque fiquei convencido pelas críticas que Lénine fez.
Rosa Luxemburgo também criticou este panfleto, e o Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás. Voltou a escrever sobre o tema após a revolução. A maior preocupação parecia ser o poder tornar-se numa estrutura de cima para baixo, o que acabou por acontecer.
Eles me ajudariam a tirar as minhas dúvidas sobre espontaneidade e vanguarda.
Lars T. Lih escreveu análises mais recentes (um século depois) sobre este panfleto.
Herman Gorter e Anton Pannekoek divergiam sobre táticas e formas de poder, e da vanguarda. Mas concordavam com as críticas aos economistas e companhia. A resposta de Lénine para estas correntes foi A Doença Infantil do «Esquerdismo» no Comunismo, se não estou em erro. Outro crítico do resultado da revolução e que tem mais em comum com estes dois é Paul Mattick.
Amadeo Bordiga defende a tática de Lénine, contrapondo com os três mencionados acima. Viveu depois de Lénine e sempre se denunciou o capitalismo de Estado da URSS e os “países socialistas”, mas defendendo a revolução e a ditadura do proletariado.
São tudo leituras que ainda não fiz, mas que estão guardadas no meu pensamento para um dia ler.