Há uns meses o Coletivo Ruptura referenciou um texto que penso entender
melhor o que era suposto ter tirado dele (embora talvez o deva ler outra vez).
Parece ser complicado dizer que uma “ditadura/autocracia” é tipo uma
“democracia” e fácil mostrar e ver como estas democracias são uma ditadura — uma
ditadura de uma só classe.
Estudar a história política das correntes revolucionárias é estudar a influência
das ideologias vindas da práxis da época, o seu uso pela classe dominante e a
sua influência no resto das classes.
Pois, como escrevem Marx e Engels, em A Ideologia Alemã, as
ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou
seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo
tempo, o seu poder espiritual dominante
.
No exemplo do Irão, petromonarquia, existe uma centralização e um capitalismo de
Estado fortalecida pela monarquia Pahlavi, pela revolução de 1979 e pelo
conflito com o Iraque nos anos posteriores, que criaram também a “identidade
nacional” iraniana. Esta centralização protegeu no final do séc. XIX da
influência do imperialismo britânico e russo, mas também os movimentos
separatistas de algumas minorias étnicas. A revolta de 1979 reorganizou a classe
dominante nesta burguesia clerical que arranjou a república com termos
religiosos. Existe polaridade de centros de poder: o Wilāyat al-Faqīh,
tutela do jurista, líder supremo, que garante o “governo islâmico” — com raízes
no debate político persa do séc. XVIII contra a legitimidade dos califados
sunitas, hoje, sobre o 12.º imã, cujo próprio representa, “manto do profeta” e
da “casa de Maomé” —; o gabinete do líder supremo; a guarda revolucionária; e o
governo civil. Mas tudo defende os interesses da burguesia iraniana — embora
existam conflitos entre frações dessa burguesia (e em todas as outras), e vê-se.
Porque é uma ditadura da burguesia.
Mesmo num sistema autoritário, os líderes não governam sozinhos
, mas
sim em conjunto com uma pluralidade de centros de poder e de redes de
clientelismo elaboradas
. Esses sistemas são expressão das
circunstâncias históricas locais
e operam em consonância
com
elas.
Uma ditadura da burguesia, igual hás que temos na Europa democrática.
O assassinato selvagem e infame
de Liebknecht e Luxemburgo desmascara a
democracia e o seu conteúdo imperialista. Não é possível existir uma
democracia fora ou acima das classes, […] que na sociedade atual, enquanto os
capitalistas conservarem a sua propriedade, a democracia possa ser algo
diferente da democracia burguesa, isto é, da ditadura da burguesia, dissimulada
sob falsas insígnias democráticas
.1
Por isso é que Francisco Martins Rodrigues fala da treta da superioridade
democrática
. Na altura tenho a sensação que discordei com algumas partes
do texto, mas talvez porque entendi mal a mensagem. É óbvio que quando um Estado
ataca outro com a retórica de que defendem a democracia, é balela, o motivo é
outro. Até aí okay. Depois o que entendi é que ele era contra
tratar “democracia” e “ditadura” como opostos, okay, mas também
o falar mal do regime dos países “não democráticos estilo europeu”,
not okay, mas como devia estar com sono e a ler na cama,
apanhei a mensagem por aí, incorretamente. Claro que ia discordar, tem muito que
criticar de qualquer regime burguês. Mas o que provavelmente ele queria
transmitir é que é nocivo apenas falar mal dessas configurações da ditadura da
burguesia, sem nunca falar mal das outras, incluindo a mais “democrática”.
Porque o que depois acontece é que acabamos por dar legitimidade ao ataque pela
falsa defesa da suposta “democracia” que iria servir a mesma forma de domínio de
uma classe sobre a outra, e por isso nunca neutro, para não falar que esconde as
diferenças e lutas de classes. A crítica não deve ser à configuração da ditadura
da burguesia, mas à ditadura, à burguesia e à existência de classes, e aos
Estados, e agir de modo a preparasse para quando chegar o momento de ser
possível abolir a necessidade de dominação de classes — característica do
capitalismo2 — fazê-lo.