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Democracia, Teoricamente

Resumo

Ensaio de análise materialista à democracia.

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A democracia é o melhor invólucro político.

Inicia-se da nova situação económica mundial, uma crise da ordem política e uma nova fase política mundial marcada por protecionismo, militarismo, medo, etc. Campanhas de lei e ordem. De um populismo destrutivo cheio de contradições. (Dizem acabar com as crises e, ao mesmo tempo, defendem o sistema que as gera, tornando a sua garantia de riqueza, paz e segurança numa mentira.)

Estas campanhas, no entanto, não serão simplesmente o que decidirá os votos: serão as relações materiais de cada recenseado com o todas as classes sociais. A classe dominante pode então tentar influenciar estas relações com o seu poder político, mas sempre condicionada pelas condições materiais mundiais do capitalismo na fase imperialista.

Mas é interessante como quem nada têm a perder a não ser as suas cadeias acaba por ter confiança no seu opressor, ao ponto de chegarem a regurgitar “sou capitalista” ou “sou fascista”. Não é óbvio que deveriam ser comunistas também?

A natureza humana da burguesia é fazer lucro. A burguesia não é um monólito. Eventualmente se criam confrontos pelo lucro entre diferentes frações da burguesia, como os Estados burgueses — que nesta situação fazem guerras e políticas nacionais — ou os diferentes partidos e fações — que defenderão cada um a sua burguesia. Nestas condições se gera a ideologia dominante, que cria a falsa consciência nas massas com a sua falsificação da realidade. É isto que determinará no fim a abstenção e os vencedores e perdedores das eleições. A razão de todos não votarem no mesmo é porque cada indivíduo é o conjunto das relações sociais, criando uma ideologia própria de forma espontânea. É possível observar similaridades de ideologias de modo geográfico, visto que as condições materiais são historicamente similares. Conforme experimentamos socialmente na Natureza, Praxis, perseguimos as verdades relativas alcançáveis pela via das ciências positivas, entendemos a nossa realidade do momento e desenvolvemos as nossas consciências. O resultado das eleições, aproximadamente, é [o] compêndio [Zusammenfassung] dessas consciências condicionadas pelas relações sociais que as produzem por intermédio do pensar dialético. A classe com poder político consegue condicionar a nossa Praxis, e então o nosso desenvolvimento da consciência, dificultando a imagem especular [Spiegelbild] correta da realidade. A nossa consciência também se desenvolve com o estudo da História; quem tem o poder político condiciona como estudas a História e o desenvolvimento das diferentes disciplinas históricas.

Desta forma se faz a propaganda burguesa: é não mostrar o que não lhes é favorável, e facilitando ver o que lhes é. Podemos entender isto também comparando as diferentes campanhas dos partidos políticos: cada um, mostra o que lhes favorece e desfavorece o adversário, embora ambos possam mostrar o mesmo que defende toda a burguesia nacional contra a burguesia externa, com retóricas diferentes que desfavorecem o adversário interno. A maioria das burguesias do ocidente farão propaganda à superioridade da sua democracia atual contra as formas de organização política das burguesias adversárias que seriam autoritárias, criando ideologias nacionais e a legitimação da burguesia do Estado e do seu modo de organização político. As consciências vindas dessa propaganda facilitará a reprodução da superstrutura que produziu tais consciências. Vemos também os jogos sujos de campanhas xenófobas, aproveitando que quem é afetado, legalmente (com leis feitas por eles que têm o poder político), não pode votar, não afetando os seus votos nas urnas negativamente. Deveras democrático.

Como a classe dominada pode fazer propaganda e como os comunistas podem fazer propaganda quando a burguesia é a classe dominante? Não é impossível fazer propaganda sem ser a classe dominante, aqui não tem contradição.

A contradição é que a burguesia não pode esconder tudo porque não é uma boa estratégia na sua luta pelo lucro entre eles. A propaganda burguesa é condicionada pela própria burguesia. Podem sistematicamente escolher que parte do proletariado tem acesso a certas coisas e qual não. E quem tem acesso, no final, terá quase o dever de introduzir de fora, do exterior, a quem não tem acesso, a consciência que só ele poderia adquirir dadas as condições materiais. O ideal seria permitir as mesmas condições a quem não as têm para que todos possam adquirir esta consciência avançada por si mesma, mas sem o poder político essa tarefa é complicada, requer esforços certamente. A partilha da consciência avançada é exatamente o recrutamento de reforços. Exemplo de pessoas “sortudas” são exatamente Karl Marx e Friedrich Engels, o que não significa que também eles não estivessem propícios a uma mistificação da realidade. O comunismo é a solução racional [para o misticismo através da] Praxis humana e [do] compreender desta Praxis, e deve ser usada até por quem sistematicamente é condicionado ao desenvolvimento da consciência. Usamos estas pessoas, a sua consciência e tudo o resto que sobra da “censura” burguesa, e também a própria propaganda burguesa, contra a própria burguesia. Usamos o socialismo científico e fazemos dos meios impressos de propaganda órgão da oposição revolucionária que denuncia o estado de coisas reinante no nosso [mundo] e, sobretudo, o estado de coisas político, na medida em que se opõe aos interesses das mais diversas camadas da população.


A democracia está então a favor da classe dominante, e esta afirmação já destrói a possibilidade da democracia no comunismo, uma sociedade sem classes.

Não somos moralistas, não existe uma forma moralmente direita de gerir o capital. O moral a fazer é abolir as relações sociais que a criam. Não existe um capitalismo bom e outro mau, um de paz e outro de guerra. Somos contra todos os social-imperialistas et al., que deixam para trás a luta de classes e defendem uma utopia pacifista-burguesa. Por isso, cagamos para a democracia ou para a ausência dela.

Mas a democracia é o que te permite fazer as nossas denúncias políticas e propaganda comunista em primeiro.

Uma mentira! Aprendemos com a Frente Popular na Espanha de 1936: a contra-revolução não precisa de estar vestida de negro fascista; para nós, estará num belo vestido azul com as estrelinhas amarelas da democracia europeia. A burguesia não faria lucro ao tornar ilegal ser comunista hoje e então não o faz, mas também não seria necessário ser ilegal para que a burguesia decidi-se reprimir os comunistas com o seu monopólio da violência democrática, i.e. decidida e credibilizada pelo povo.

Dito isto tudo, nós não devemos nos chamar anti-“estas democracias”, com o intuito de dizer que a democracia no comunismo seria diferente porque a base económica é outra, utilizando a etimologia da palavra para defender esta outra democracia, etc. Não! As interações humanas que mudam ao longo da história fazem com que o significado das palavras também mude. Ao chamar a “luta pelo comunismo” de “luta pelo socialismo” hoje, eu pensaria que a luta era outra. A democracia de aqui hoje é esta, e nós somos antidemocráticos, ponto. Nós não sabemos se existirá “democracia” no comunismo. Talvez nem será necessário.


Esta é a democracia, na teoria. Falta verificar cientificamente, na prática, se corresponde com a História e a realidade atual.