Dia Nacional (Portugal) do Estudante
Mas com Luta de Classes
Resumo
Dia Nacional do Estudante em Portugal: da luta histórica contra o Estado Novo.
Hoje, a luta contínua, contra o reformismo burguês (social-democracia) que tem os seus limites no que toca a propinas, bolsas e ação social, RJIES, e alojamento (PNAES); contra a colaboração de classes; com o dilema das políticas prefigurativas, que pode ser respondido quando pensamos em infraestrutura–superstrutura.
A educação não é e não pode ser neutra.
Durante a primeira república portuguesa, depois do fim da Primeira Guerra
Mundial e uns anos depois da revolução de outubro,
em 1921,
estudantes da Universidade de Coimbra protestaram por melhores condições,
especialmente nas instalações destinadas a eles, que era bem reduzido em relação
ao dos professores.
Houve protestos e ocupações. Uma das ocupações foi a 25
de novembro, que passou a ser chamado Dia do Estudante.1
Foi também o ano em que a Terceira Internacional havia sido fundada por Lenin sob a sua direção, e começou a passar o seu modelo de partido vanguarda para os outros partidos comunistas ao redor do mundo, como última salvação após todos os infortúnios que aconteceram em 1919 e adiante à revolução internacional. Foi nesse ano que o PCP foi criado, onde em 1923 participou no seu primeiro congresso, numa altura em que eles eram realmente internacionalistas (contra o social-chauvinismo, ou como eles chamam agora, “patriotismo de esquerda”) e contra a colaboração de classes, e um ano antes do Marxismo-Leninismo se transformar na ideologia do partido e do Estado da União Soviética, e do Stalinismo ser a ideologia do Comintern, que teve efeitos imediatos no recém-criado PCP sem experiência da Segunda Internacional.
Durante a ditadura militar, e depois durante o Estado Novo, as lutas continuaram:
Os primeiros protestos universitários ocorreram em 1928, em Coimbra, repetindo-se em 1931, em Lisboa, Porto e Coimbra, e novamente em 1945.
Em 1956 emergiram protestos em maior escala, contra a aprovação de um decreto lei (Decreto-Lei n.º 40.900, de 12 de dezembro de 1956) que retirava autonomia às associações estudantis e as colocava sob tutela e fiscalização do Ministério da Educação. A proibição do MUD juvenil estava incluída nos esforços do regime controlar politicamente a juventude. A contestação levou ao reforço das hostes de Humberto Delgado nas eleições presidenciais de 1958.2
Em 1961, no então Dia do Estudante, estudantes de todo o países protestaram
contra a guerra colonial,
contra o
envio de jovens para uma guerra inútil e afirmando que a juventude quer a
Paz
3, o que levou à prisão de alguns pelo Estado reacionário e a sua
repressão política. No próximo ano, os estudantes responderam com a criação do
Secretariado
Nacional de Estudantes Portugueses e à realização, em Coimbra, do primeiro
Encontro Nacional de Estudantes
que levou a processos disciplinares e
suspensões de estudantes, outra vez pelo Estado. A resposta dos estudantes foi
de luto académico e greve estudantil. Em Lisboa, a 24 de março, os estudantes
decidiram celebrar o dia do Estudante sem a autorização do Ministro da Educação.
A polícia reacionária invadiu a cidade universitária, espancou e prendeu alguns
alunos, o que levou novamente a luto e greve.
Começou a chamada Crise académica de 1962 até ao final do ano letivo, seguida de
ocupações aos estabelecimentos universitários e greves de fome, que acabou com a
detenção de uns mil estudantes e professores — algumas das detenções sendo
aleatórios — pela polícia reacionária, e a expulsão dos mesmos das instituições
de ensino.
Foi a maior
operação policial realizada pelo Estado Novo.
A luta continuou (até com o
apoio de docentes), conseguindo libertar os detidos. E continuou (também nos
liceus), com mais greves —
aulas,
frequências e exames finais […]
—,
plenários, manifestações, e comícios, que levaram à expulsão dos participantes
às escolas de Lisboa por mais de 2 anos.4não faltes amanhã, falta já hoje
A luta aconteceu também em Coimbra, no Porto, em Viseu, etc., incluindo em
outros países na Europa, incluindo no nosso vizinho Ibérico5, e levou à
demissão de Marcello Caetano, que na altura era reitor universitário, com o
intuito de acalmar os estudantes. Criaram até novas leis que
procurava
limitar a atividade das associações de estudantes e diminuir a margem de
autonomia das instituições universitárias.
6
No 1º de maio alguns estudantes juntam-se às comemorações do dia do trabalhador que, reprimidas pela polícia, levam a um morto.
Nos próximos anos dessa década, continuaram as detenções de estudantes pela
PIDE, lutos e protestos que levaram a suspensões e exclusões, a retirada de
bolsas a estudantes, a demissão do ministro da educação e troca de reitores, e o
pior mesmo,
o envio de
estudantes para a guerra colonial
imperialista.
Greves chegaram a ter adesão de 85%, com a
lista
dos “traidores” (fura-greves) […] afixada publicamente.
Alguns dos que participaram nestas lutas estudantis eventualmente ganharam
consciência política — não apenas contra o Estado Novo, mas contra a sua
infraestrutura — deixando consciência burguesa “democrática” contra os
nacionalistas
,
de
unidade
e diversidade
de colaboração de classes
(comunistas,
“humanistas laicos”, católicos e até monárquicos [sic!]
) —
A
universidade [era] apenas um local de formação das elites
—, talvez até
pré-condição para a luta política durante o PREC.
Por essa luta, foi fixado em 1987 o Dia do Estudante no dia 24 de março.7
É engraçado que a informação mais “oficial” que encontrei acerca deste dia foi um vídeo #EstudoEmCasa do Windoh aka perito das criptomoedas.
… É um dia de celebração, luta e homenagem às dificuldades e aos obstáculos que os estudantes enfrentaram na crise académica dos anos 60.
É uma data que celebra a força que o estudante tem na luta pelo direito à Educação e pela Liberdade.
Quais devem ser as nossas táticas
Recentemente, e ainda, estou a ver os vídeos do canal Red Plateaus cujo título chamam-me mais à atenção. Um dos vídeos foi o “What is Prefigurative Politics?”, porque eu queria a resposta a essa pergunta — não sabia-a, estava realmente curioso.
A resposta fez-me lembrar sobre umas notas que escrevi quando analisei, faz pouco tempo, o Programa do Partido Comunista Português, no capítulo “O Socialismo, Futuro de Portugal”:
Eles acreditam que
a realização de um tal projecto [democracia avançada] criará condições propícias a um desenvolvimento da sociedade portuguesa conduzindo ao socialismoe quea sociedade socialista […] incorpora e desenvolve os elementos fundamentais […] da democracia avançada.Discordo das duas coisas:
- A democracia avançada nunca mexe com o poder político de verdade, o Estado nunca deixa de ser burguês, por isso, o proletariado estará na mesma situação nesse sentido de qualquer forma. Não existe preparação nenhuma para o socialismo, apenas o capitalismo;
- Não acho que seja possível dizer que a democracia avançada incorpora características de uma sociedade socialista, porque não existe registo de uma sociedade dessas, porque nunca existiu. Dá para pensar naquilo que não vai existir nessa sociedade, baseado no facto de que propriedade privada, estados, e classes, deixam de existir, mas não como ela vai ser de verdade. Estão a fazer propaganda enganosa da democracia avançada. Para não falar que muitas das coisas que mencionaram fazerem parte na democracia avançada, é claramente fruto do modo de produção capitalista.
Trago isto para esta conversa por quê? Nós sabemos como uma sociedade comunista — sem estados, sem classes, e sem valor de troca, e por isso dinheiro — não vai ser, mas não existe forma nenhuma de sabermos como ela há de ser. Isto não faz das políticas prefigurativas uma pura perda de tempo e energia revolucionária?
Infraestrutura e superstrutura
O objetivo da sociedade dividida em classes é o de perpetuar todas as condições
que lhes permitam um funcionamento ininterrupto. Todas as sociedades possuem
uma infraestrutura e uma superstrutura. Quanto mais se desenvolve a
infraestrutura, no caso do capitalismo, as forças produtivas, maior e mais
desenvolvida fica a superstrutura também. O uso da Inteligência
Artificial (IA) generativa
desenvolve certamente as forças produtivas hoje. Durante a longa transformação
do “macaco” ao Homo sapiens sapiens, a força de trabalho humana (parte
das forças produtivas) também evoluiu bastante, desde adquirir a posição ereta
(Homo erectus), ao uso da mão e dos dedos para segurar nos instrumentos
de trabalho, até ao desenvolvimento da linguagem e da palavra articulada
que nos permite dizer algo
tanto falado quanto escrito. Conceção
materialista do Marxismo aplicada ao Darwinismo por Friedrich
Engels em A Dialética da Natureza e no ensaio
inacabado
O papel do trabalho na transformação do macaco em homem.
Bem… A forma típica de organização da superstrutura é a do Estado, e que mesmo assim vêm de várias formas independente da infraestrutura ser a mesma — temos as “democracias” ocidentais, e temos um regime clerical no Irão, por exemplo; ambas ditaduras da burguesia com a mesma infraestrutura. Toda a superstrutura (e por isso, os estados) têm interesses na continuidade e na defesa do processo de formação da mais-valia. Por isso os estados, todas ditaduras da burguesia (os existentes hoje), reprimem economicamente, politicamente, e ideologicamente.
Por isso Engels diz no prefácio do livro
Der deutsche Bauernkrieg que
a
luta [do movimento operário] se conduz em suas três direções: teórica, política
e econômico-prática (resistência contra os capitalistas), com tanto método e
coesão.
Repressão ideológica
A repressão ideológica pelo Estado é principalmente feita pela organização da educação, conhecida como “educação pública”, paga maioritariamente pela mais-valia que o Estado fez pelos impostos.
Todas as ramificações organizativas do Estado, incluindo a escola, não só não podem ser transformadas, mas devem ser resolutamente combatidas, porque com esta infraestrutura, só servem para a continuidade e a defesa do processo de formação da mais-valia. Transformações não passam de social-democracia: ideologia burguesa. Estes reformismos acabam por nunca enfrentar a infraestrutura — porque só a superstrutura é que mudaria —, e por outro lado, ajudam-na a adaptar-se, ensinando-lhe uma nova configuração que a permite prevalecer ainda mais, melhorando a eficiência do Estado.
O Estado, e a escola, nunca puderam ser “neutras” — fazem parte da sociedade, totum ordinis, historicamente sob dominação de classe, não um organismo de moral neutro —, e por isso, defender o ensino público, por si só, não é ser socialista revolucionário — ser “público” não é ser proletário —, até porque o ensino público serve as mesmas funções do ensino privado, apenas para capitalistas diferentes. Vamos escolher qual capitalista preferimos? Não, isso seria social-democracia.
Aprender
A educação, para além de difundir ideologia, difunde também instrução em conjunto — tentando adequar-se às exigências de toda a sociedade capitalista —, independente do curso científico-humanístico, ensino regular (“teórico”) ou ensino profissional (“prático”): ciências e tecnologias e ciências socioeconómicas (associado à instrução), ou línguas e humanidades ou artes visuais (associado à ideologia). A instrução é importante para a organização da produção capitalista. Depois da classe dominante difundir a sua ideologia nas escolas, o Estado vai lá selecionar quem é que vai vender a sua força de trabalho para eles, e quem é que talvez se tornará num parasita pequeno-burguês a lamber as botas do capital (para isso é que eu tenho a cadeira de “Marketing e Empreendedorismo”). No caso de Portugal, as escolas públicas servem não só a burguesia portuguesa, mas também a burguesia imperialista da União Europeia. Na minha cadeira de “Regulação Informática”8, eu sou obrigado a estudar o Direito da União Europeia; mas não é só por isso. No ensino privado, a burguesia privada que financia a escola, faz o mesmo, mas para os interesses deles. Segundo a Pordata existem 2 milhões de alunos matriculados em Portugal neste momento, um quinto da sua população. É a futura classe operária, influenciada pela ideologia burguesa. E pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), 200 mil professores, que estiveram na mesma situação, e que hoje ajudam na perpetuação destas difusões sem se aperceberem.
A difusão da instrução não é algo da escola, mas sim da sociedade — porque a ordem existe para o fim — e da relação Homem–natureza (tópico também falado nos textos de Engels mencionados acima). Por exemplo, com a introdução da IA generativa (também já mencionados), os professores agora instruem sobre o seu uso. No capitalismo, a instrução é moldada pela divisão de classes sociais e pela divisão do trabalho em trabalho “intelectual” (tipo managers e essas cenas) e “manual”. Esta divisão existe por causa da infraestrutura, e não dá para mudar as organizações da superstrutura, como a escola, para acabar com esta divisão.
Como eu estou descontente com o ensino — como ele existe —, eu estava a pensar fazer mestrado em ensino e/ou pedagogia — tentar trazer um toque de ciências da computação com o software livre. Mas a realidade com que me deparei recentemente é que tirar esse mestrado (ou uma licenciatura) com o intuito de mudar a organização do ensino já não vai com a minha ideologia atual. Acabaria apenas por criar mais uma ideologia burguesa, fortalecendo mais a superstrutura. Não se resolve com ideias aquilo que se resolve na prática. Por isso, vou continuar com a ideia de um mestrado qualquer na área dos Science, Technology, Engineering, and Mathematics (STEM) — ideia que não tinha completamente descartado —, que é inevitável que vou ser instruído para ser explorado pelo capital, a inovar cientificamente e desenvolver a IA para a indústria bélica, mas que depois de uma revolução internacionalista socialista essa ciência continuaria a servir, mas que serviria todos (porque teriam acabado as classes) e não só uma pequeníssima fração da sociedade. Estudar “ideologia” para depois a infraestrutura mudar e a ideologia deixar de fazer sentido parece-me uma perda de tempo. E dependendo da ideologia que queres estudar, consegues fazê-lo sem dependeres diretamente do Estado.
Lembro-me de que em uma das “reuniões” da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), no meio de , quando estávamos a discutir o Projecto de Resolução Política para o 13.º Congresso da JCP, eu cheguei a sugerir que o ensino público tinha que ser uma espécie de cooperativa. Não me lembro bem como foi, mas sei que me interromperam logo, porque “escusas reformar o ensino se não é para o mesmo deixar de servir ao capital”. Ou então a preocupação era que mesmo tendo uma forma jurídica mais para o cooperativo, o ensino continuaria a não ser gratuito como a Constituição da República Portuguesa diz que deve ser. Até porque eles querem reformar o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) — que só faz cóceguinhas à infraestrutura.
As formas de organização do ensino já mudaram várias vezes, conforme as exigências do capital e a luta de classes. O que nunca mudou foram as relações de produção: o capital e salário, a divisão social e da divisão do trabalho.
E é nessas quatro coisas em que a luta no ensino se deve basear.
Como disse Vladimir Ilitch Ulianov “Lénine” em
Que Fazer? Problemas Candentes do Nosso Movimento, temos
que trabalhar em
todos
os terrenos
, não só na fábrica, e não só na escola.
Uma verdadeira consciência política: Está habituadaa reagir [do ponto de vista comunista] contra todos os casos de arbitrariedade e opressão, de violências e abusos de toda a espécie, quaisquer que sejam as classes afectadas[…]
…
Dirigir a atenção, o espírito de observação e a consciência da classeexclusivamente/principalmentepara si própria, não é ser comunista…[…]
Compete-nos aprofundar, alargar e intensificar as denúncias políticas e a agitação política.
[…]
O comunista deve
sugerir àqueles que só estão descontentes com o regime universitário ou com o do zemstvo, etc., a ideia de que é mau todo o regime político.
A nossa luta contra a organização da educação, tem que ser igual à luta contra qualquer outro tipo de organização burguesa: não pode ser uma luta reformista/economista/oportunista/social-democrata.
Deve envolver denúncias políticas e luta de classes com agitação revolucionária, propaganda marxista, ocupações e expropriações, cursos Marxistas modo dualidade de poderes (sem influência e financiamento do Estado, ou seja, não através da instituição de ensino com a ajuda das associações académicas/estudantis, e sem depender de partidos do sistema, mesmo que de “esquerda”, embora os seus integrantes sejam muito bem vindos, a priori), mobilizações de massa, lutas nas ruas, greves estudantis, etc., e não deve parar na escola.
Deve preparar para a revolução socialista.
Colaboração de classes
Devemos ter cuidado, porém, com a colaboração de classes. Da mesma forma que apenas se chamar “anti-imperialistas” e isso significar que estás não do lado do proletariado internacional, mas sim de um “povo” que constitui uma burguesia e um proletariado que o mesmo explora, uma “unidade entre estudantes e trabalhadores” também têm os seus quês. Existem tanto estudantes como trabalhadores (na sua forma abstrata) que fazem parte da burguesia, e a nossa luta não é para os beneficiar, mas também não é preciso proibir que eles lutem por nós. Engels tenho a certeza que era parte da burguesia, e mesmo assim lutou pelo proletariado. Então a luta deve ser contra o sistema capitalista e imperialista mundial, e não contra indivíduos.
O estudante, como a dona-de-casa, é caracterizado socialmente pela família (como
instituição), que sustenta e reproduz a força de trabalho, e que é quem paga as
despesas da educação. Então a abolição da família — embora está talvez seja
também apenas uma organização da superstrutura, parte da
comunidade
política
. Imagino que seja disso que se trata
A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado
de Engels.
A luta por um melhor salário tem que estar presente. Repara na diferença em pedir mais investimento na educação pública, onde todos os estudantes beneficiam, até aqueles socialmente burgueses (através da família), e que no fundo nem têm despesas com a educação porque o proletariado é que paga as despesas por ele. Parasitas! Já a luta pelo aumento de salário (sem que ela seja trade-unista, por isso, em conjunto com denúncias políticas), fortalece a classe trabalhadora, enquanto enfraquece a sua classe opressora.
Não são precisos aliados que criam mais-valia para o capital. A escolha de aliados não deve ser um julgamento moral, mas sim um julgamento político.
Estas são algumas das Tesi sulla tattica leninista nella crisi della scuola.
Voltando às políticas prefigurativas. Temos que através da superstrutura mexer no que realmente mexe a infraestrutura. Outra vez: o capital e salário, a divisão social e da divisão do trabalho. Não é então para imaginar como uma sociedade que nunca existiu, inimaginável até, deve ser, e tentar aplicar essa ideia de sociedade numa superstrutura, quando a infraestrutura é totalmente incompatível com a suposta sociedade. A pergunta mesmo é: como e qual a melhor forma de mudar a infraestrutura, especialmente em relação à divisão social? Com a luta de classes.
A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes.
[Homem] livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo [Leibeigener], burgueses de corporação [Zunftbürger] e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta.
— Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista
Como anda a luta atualmente
Vejamos então o que é que a JCP (não é para picar, é só porque não vejo mais ninguém a falar deste dia) tem a dizer.
Começa logo com o acabar com a propina
. O que devia ser pedido no mínimo
era acabar com a propina apenas aos estudantes do proletariado. Porque
realmente, propinas ou não, o Estado e o capital ficam intactos. E eu até pouco
tempo também estava nessa retórica. Tanto que escrevi sobre todas as razões do
porquê acabar com as propinas — a razão das bolsas de estudo não serem solução,
ralhando com quem diz que “são só 13 €”, contra aqueles que metem a culpa no
aluno, demonstrando que não afeta apenas quem faz universidade, “ah! mas as
pessoas tem cada vez menos filhos”, contra aqueles que acham que a escola
“grátis” é inerentemente de pior qualidade, etc. — embora não tenha acabado de
escrever a postagem.9 Na altura que a infraestrutura precisar de mais alunos
no ensino superior, ela vai fazer isso acontecer (acabando com as propinas, ou
com qualquer outro método, selecionando quem serão esses alunos). Neste momento,
é-lhes mais favorável a reforma na ação social, de que falei brevemente na
altura que o Ministro da Educação falou porcaria. Noutro momento,
talvez eles decidam por o fim dos exames nacionais — se virem que precisam de
mais cidadãos assalariados com melhores qualificações, e que este filtro está a
atrapalhar. Mudar o sistema de avaliação era um dos meus objetivos, mas
já expliquei em cima o porquê que não dá em nada.
Dão exemplo de países capitalistas, que nem sei se dá para chamar de
social-democracia: viz. Alemanha, Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia. Não
foi a defender esses países por completo; apenas no que toca a propinas,
taxas e emolumentos
no ensino.
A bolsa de estudo é a mais-valia produzida pelo proletariado “emprestada” aos
mesmos para depois ser devolvida imediatamente ao Estado burguês através da
renda (e.g. alojamento estudantil público), do lucro comercial, e dos impostos,
propinas, taxas e emolumentos
. O aumento da bolsa de estudos
não
toca na burguesia nem nos seus estudantes, e se toca, é no bom sentido para
eles.
Resolver a situação do alojamento estudantil publico
ao fazer cumprir
o
PNAES
.
Isto não mexe com o capital de forma alguma. A situação do alojamento […]
publico
, mas já agora privado também, na realidade só é problema a resolver
para quem sai beneficiado, aqueles estudantes que fazem parte da burguesia e
para ela num todo, porque, igual às bolsas e tudo o que é ação social, quem está
a criar a mais-valia com o alojamento é a burguesia, neste caso o Estado. A luta
deve ser contra ambos os tipos de senhorio, seja público ou privado — ambos
parasitas — que ganham dinheiro sem trabalhar, mas com a exploração do
proletariado, de que a maioria dos estudantes faz parte. Sugiro o vídeo
[Landlord arguments suck (Debunking Arguments Landlords Use to
Justify Their Existence)][hakim]. Toquei nesta retórica um pouco na
Pobreza não causa degradação!. Quando chegar a
necessidade de cumprir o PNAES
— porque lhes dá jeito mais estudantes
deslocados numa zona em específico do país, por exemplo — fá-lo-ão rápido. Esta
luta faz-se aumentando o salário do proletário, e diminuindo (é para abolir) o
preço de todas as casas, públicas ou privadas.
Afinal, a luta deve ser para abolir o valor de troca — e por isso, abolir o dinheiro — para todas as mercadorias (produtos e serviços).
Até agora, a luta por um melhor salário, com denúncias políticas e a finalidade de abolir o salário, é muito superior a tudo sugerido em cima. Mesmo o estudante do proletariado não sendo assalariado (por enquanto). Mas é por isso que são necessárias as denúncias políticas: para conectar a luta dos assalariados com a luta política de todas as outras classes do proletariado pelo capital, incluindo a parte que é estudante. O proletariado está a pagar os estudos a todos; temos que fazer com que a burguesia pague os estudos apenas ao proletariado, com a finalidade de acabar tanto com a burguesia, como com o proletariado — abolir as classes significa abolir todas as classes.
São contra a elitização do ensino superior
, onde aprofundam mais sobre o
tema numa nova publicação no TikTok. Como disse mais para o final de
um dos capítulos anteriores, querem reformar o
RJIES.
Querem maior participação dos “estudantes”, mas como já foi dito, os
“estudantes” envolve colaboração de classes. Então já dá para imaginar quais os
estudantes que serão selecionados para essa representatividade.
Quando o Primeiro-Ministro (PM) e o Ministro da Educação vieram para a inauguração da nova residência,
a representante dos estudantes, alguém que nunca vi na vida já agora, que não
vive nas residências da universidade (que eu saiba), nem que vai comer à
cantina, não falou nada de jeito durante o seu discurso. A
nova Associação Académica do politécnico ainda não convocou nenhuma
Assembleia Geral, ou lá como se chama. Acho que esta política prefigurativa tem
potencialidades, mas apenas se mexer com a divisão social e da divisão do
trabalho. Não se pode apelar por uma participação democrática dos estudantes
nos órgãos
sem esta mexer com o de cima. Porque tanto a “democracia” quanto
os estudantes envolvem colaboração de classes, como também os
interesses nacionais do nosso povo e da
juventude
, como dizem também no vídeo — a retórica que
encontrei no Programa do
PCP.
Esta luta é sim importante, desde que seja a luta revolucionária, não reformista. E este dia não pode ser o dia da luta dos estudantes nacionais, mas da luta do proletariado internacional.
Olhando para alguns dos meus trabalhos anteriores, eu caio nesta falácia de reformas referenciando a constituição burguesa, e acabo talvez por ser social-democrata.
Footnotes
-
https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_estudantil#Portugal ↩
-
https://pt.wikipedia.org/wiki/Crises_acad%C3%A9micas_do_Estado_Novo ↩
-
https://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/avante/pdf/AVT6313.pdf ↩
-
https://pt.wikipedia.org/wiki/Crise_acad%C3%A9mica_de_1962 ↩
-
https://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/avante/pdf/AVT6354.pdf ↩
-
https://50anos25abril.pt/historia/primaveras-estudantis/o-movimento-associativo-e-os-seus-lideres/ ↩
-
https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/400-1988-358755 ↩
-
Pelo menos esta cadeira trouxe leituras um pouco interessantes como ubi societas, ibi jus. ↩
-
Comecei-a , também a falar sobre a nova “Residência
EuropaFantasma”. Um dia acabo-a (talvez quando voltarem com a conversa do descongelamento das propinas). ↩