Eleições presidenciais portuguesas de 2026
Imperialismo, imigração e luta de classe
Resumo
Análise crítica do debate entre todos os candidatos presidenciais na RTP.
Perspectiva sobre as posições dos candidatos sobre Venezuela, imperialismo, imigração e luta de classes.
Vi todos os debates, e analisei a maioria deles.
Para dar contexto ao que vão ler, podem assistir à repetição do debate aqui.
Para mais informações sobre as eleições, os candidatos e as suas posições político-partidárias, sugerio que leiam este artigo na Wikipédia.
Venezuela
Para Mendes
estamos
a falar de uma situação muito delicada
.
O direito internacional e o multilateralismo já não servem o imperialismo do ocidente.
O
futuro da Venezuela tem que ser decidido pelos venezuelanos: em democracia, em
liberdade, sem limitações e sem condicionamentos
.
Gouveia e Melo diz que
esta
intervenção foi extrair 2 pessoas num território
, sem mencionar que isso
envolveu a morte de pelo menos 70 trabalhadores.
Chama à atenção para o neocolonialismo dos Estados Unidos da
América (EUA), que querem
controlar a Venezuela
como
se fosse uma colónia
.
Ventura diz para fazer perguntas
aos
milhares de venezuelanos que estão em Portugal
, ou qualquer outro sítio para
onde imigraram, ao invés de fazer perguntas a quem está a viver neste momento
na Venezuela ou ao redor, na América Latina e nas Caraíbas,
que foi diretamente afetado com a intervenção dos
EUA.
Diz que
o
direito internacional não está para proteger governos
que é mentira, serve exatamente para defender o interesse dos
estados (capitalistas), e depois diz que
existe
para proteger povos
, mas dentro dos povos existe a classe burguesa, que eu
sei que o Ventura defende, mas que não é do interesse da classe trabalhadora ela
ser defendida.
Pergunta
como
é que queriam que os venezuelanos se livrassem de um ditador
… Talvez da
mesma forma que eles já fizeram antes.
Portugal também já fez algo parecido recentemente, nas mesmas situações
que tu dizes a Venezuela ter neste momento.
A morte do bin Lādin poderia nem ter sido uma opção se os EUA não tivessem armado os mujāhidīn no Afeganistão.
Mas
alguma vez Portugal abdicou-se do seu território
? O Ventura ou não sabe ou
se esquece que Portugal esteve sempre a lamber as botas do Reino Unido,
por exemplo, quando se abdicou do seu plano colonial do
mapa cor-de-rosa, ou já que falou na Base das Lajes, quando durante a
guerra do Yom Kippur, Portugal abdicou-se da base aérea aos EUA para eles
fazerem ponte aérea a Israel, já que Portugal não aguentou as ameaças do
secretário-geral Kissinger, de abandonar Portugal à sua sorte. Somos uns
fraquinhos afinal. Parece que perante as
ameaças
dos maiores reinados do mundo, durante a nossa história toda
, muitas das
vezes não houve nem defesa, nem luta.
Seguro vem com a conversa nacionalista de que
a
nossa prioridade é a preocupação com os portugueses que vivem e trabalham na
Venezuela
, a prioridade
mais
importante
, por que são mais importantes que todos os outros trabalhadores?
Chauvinismo! É que nem mostrou uma fração da mesma preocupação para os outros
todos.
Fala sobre o que já era óbvio, sem ser necessário o Trump admitir: a “democracia”, ou a ausência dela, não é o que preocupa os EUA. Nem o “narcotráfico”. Aliás, nunca foi. Os EUA já deram suporte e continuam a dar suporte a muitos estados antidemocráticos. Temos os casos do Panamá e do apoio ao início da ditadura militar no Brasil. Eles também já financiaram o tráfico de drogas. Eles próprios criaram a sua epidemia de crack que afetou especialmente a classe trabalhadora negra, e que serviu de desculpa para racismo. E o Trump faz amizades com traficantes. O que eles querem realmente é controlar os recursos, e o território.
Cotrim de Figueiredo está a falar como se o Estado da Venezuela fosse apenas o presidente, e como se tivesse havido um golpe de estado. O estado venezuelano continua a funcionar com “normalidade”
Sem esconder, quer o rearmamento da União Europeia (UE).
Martins
tem
defendido há muito tempo
uma estratégia europeia
sobre
a defesa e a segurança
(guerra)
importantíssima
.
Mas isso serve para defender os interesses dos trabalhadores ou os interesses
imperialistas da UE? E a “força”, afinal, não está nos trabalhadores, mas sim
quando
os estados querem
.
Vieira compara Trump e Putin com Hitler, todos imperialistas. Também traz à conversa que uma das razões dos EUA quererem controlar as exportações do petróleo na Venezuela, é para ele continuar a ser vendido com o dólar dos EUA.
Correia, acha que a Venezuela é comunismo, ou seja, não sabe o que é
comunismo. Venezuela é um estado — que não existem no comunismo — que tem
classes — criadas através do estado — e que usa dinheiro para vender o seu
petróleo. Aquilo é capitalismo, e Maduro faz parte da burguesia. Para ele no
comunismo não existe democracia pelo que dá a entender, já que
se a
Venezuela tivesse um regime “democrático” não teríamos nesta situação
.
Depois vem com conversa nacionalista de salvar os portugueses esquecendo-se dos
outros todos.
Credibilidade e Independência
Seguro tem apelado ao “voto útil”. A história é sempre para os candidatos à esquerda dele desistirem, mas nunca falou da possibilidade dos Gouveia e Melo ou Mendes desistirem, ou quem está ainda mais à direita. Ou porque não é ele a desistir? Vemos claramente que lado é que o Seguro está: no lado do capital, contra os trabalhadores. Será este o tal consenso neoliberal de que Filipe fala tanto?
Ventura admite que
estamos
a importar imigrantes
, mão de obra, e que quando vêm, afinal é para
trabalhar.
Mendes vai
dar
condições políticas ao governo para governar durante a legislatura
porque
foi o
governo eleito pelos portugueses
, ignorando completamente os
abstencionistas, e afirmando que se o governo é fascista, ele vai deixar ficar.
Elogia as ações de Gouveia e Melo como se fossem algo
tipicamente
do PREC
.
Pinto
quer
defender a nossa democracia
liberal, e por isso desistiria da candidatura
para os seus eleitores votarem “útil” no Seguro, que já vimos que lado é que ele
está. Jorge Pinto está no mesmo lado.
Filipe e Martins dizem que não vão desistir.
Vieira,
em
relação à saúde, […] proibia a doença
.
Tentaria
seduzir o governo […] a inscrever na constituição o direito à felicidade
.
Envelhecimento e Imigração
Ventura reconhece que precisamos de mão de obra.
Pagassem bem aos portugueses que já não tínhamos que ter tantos imigrantes. Se as pessoas tivessem salários dignos e não fossem tratados como escravos, se calhar tínhamos menos necessidade de imigração.
— André Ventura
Interessante. Então é preciso serem portugueses para pagar exigir
salários
dignos
?
Se não tivéssemos uma cultura de subsídio-dependência, não tínhamos tanta necessidade de mão de obra imigrante. A verdade é que como há subsídios para tudo e para todos, as pessoas não trabalham.
— André Ventura
Dizer que um setor precisa especificamente de mão de obra imigrante é um perigo.
Começa com a xenofobia. Que os imigrantes são
uma
grande parte criminosos/bandidos que hoje estão a matar pessoas, a assaltar
pessoas e a violar pessoas
. Que eles põem em causa
a
nossa identidade, a nossa coesão e a nossa segurança
.
Seguro diz ser preciso imigrantes especificamente, ao invés de trabalhadores no geral, um perigo.
Martins chama a atenção para isto:
se
nós separamos trabalhadores de trabalhadores, não estamos a focar onde é
fundamental
.
E o nosso problema, não é onde cada pessoa nasceu. O nosso problema é o salário ser baixo. Porque o salário baixo, ou o transporte que não funciona, ou a casa que é cara de mais, afeta todos os trabalhadores, tenham eles nascido onde tiverem nascido.
— Catarina Martins
Para Cotrim de Figueiredo, o
crescimento
económico
é
absolutamente
crucial para a resolução de todos os problemas
. Mas apenas se forem os seus
problemas. Porque eu já disse quem ganha com este crescimento:
é
só quem já tem capital
.
A solução para os pobres que não têm poder na economia é o crescimento económico já que zero é o elemento absorvente da multiplicação no conjunto dos números reais.
Mendes estava distraído quando a Martins falava e diz que
precisamos
de imigrantes
, e para piorar, diz que a razão, é
porque
os portugueses já não querem fazer certos trabalhos que os imigrantes hoje me
dia fazem
, ignorando a coerção laboral que as pessoas sem cidadania
confrontam. Quem não faz esses
certos
trabalhos
é porque tem a possibilidade de não os fazer, porque na realidade,
nenhum trabalhador deseja um trabalho precário, que é a real razão de ninguém,
imigrantes e portugueses, querer fazê-los.
Mendes concorda com Figueiredo que o crescimento económico é parte da solução.
Veio outra vez com a conversa de que
uma
empresa são os acionistas, são os gestores e são também os trabalhadores
.
Uma empresa são só os trabalhadores, e nada os outros. As empresas não funcionaram quando os trabalhadores estavam em greve e não foram trabalhar, não foi?
Correia repete o que disse no debate anterior
“Portugal
não pode viver sem imigração […], mas, ao mesmo tempo, o povo português não
pode ser absorvido pela imigração”, seja lá o que significa absorver aqui
.
Pestana, relembra que
a
luta dos trabalhadores e das trabalhadoras é a única forma
de nós
trabalhadores termos as reformas que nós queremos. Se eles não nos dão as
reformas, a revolta aumenta, e a revolução fica mais próxima, e o capital não
quer isso. Está tudo nas nossas mãos.
Não
é um presidente da república, não é um governo, mas é essa mobilização
.
Perguntas-Dilemas
O Ventura tem a lata de dar opinião sobre o companheiro de outra pessoa. Autoritário.
O travão do liberalismo que Cotrim de Figueiredo diz estar
embutido
em si próprio, ele acha que são os
sentimentos morais
e não a
mão invisível,
[…] deixar as coisas funcionar que aquilo há de espontaneamente
endireitar-se
. Os sentimentos morais
explica
muito bem como é que numa sociedade liberal é impossível uma pessoa sentir-se
verdadeiramente livre, quando têm pessoas a passar fome ou dificuldades ao seu
lado, e que os sentimentos morais estão bastante acima do interesse próprio
,
que
está
na própria natureza humana
.
Já esperamos por algum tempo e continuamos à espera dos sentimentos morais dos genocidas dos palestinos, dos curdos, dos arménios, pelo fim da exploração dos países periféricos como vários países da África (Congo, Sudão), da América Latina e da Caraíbas (acabamos de ver o que aconteceu na Venezuela), entre outros, pelas desigualdades que o capitalismo aumenta. Ou devemos, ao invés de esperar pelos sentimentos morais, esperar pela mão invisível?
Não existe simpatia porque a simpatia neste caso não favorece o capital. A simpatia só aparece quando o capital ganha com isso.
Se é para esperarmos pelos sentimentos morais do capitalista, estamos lixados. Nada vão fazer para realmente acabar com a exploração e desigualdade. O problema é sistemático, é preciso revolução.
A mão invisível parece pura ideologia burguesa contra-revolucionária. Então estás a dizer-me para deixar acontecer e aceitar a situação atual das coisas, que naturalmente vai ficar tudo bem? Idealismo. Como se não fossem os trabalhadores que, no fundo fazem, com que este sistema funcione. A mão visível?
O João Cotrim de Figueiredo deve ser daqueles que se queixa que o “comunismo”
está ultrapassado, enquanto menciona textos de alguém da geração anterior à de
Karl Marx. Aliás,
uma das fontes e parte constitutiva do Marxismo era a
economia
política [clássica] inglesa
de Adam Smith e David Ricardo. Talvez Figueiredo
devia atualizar-se.
Das coisas mais sérias que eu falei, foi o direito à felicidade que eu afirmei aqui, ser inscrito na constituição. Acho que isto é uma coisa bastante séria. Acho que a felicidade é aquilo que nos faz estar verticais neste mundo.
— Manuel João Vieira
Conclusão
Encarar estas presidenciais, portanto, não é escolher um “salvador” nem projetar nelas a solução para a crise social e política. É compreender que nenhuma destas candidaturas oferece, por si só, uma saída capaz de inverter o rumo do país ou de travar a ofensiva patronal em curso. O risco maior não é votar numa candidatura insuficiente; é alimentar a ilusão de que a mudança virá das instituições, quando a experiência recente mostra exatamente o contrário.
Catarina Martins, António Filipe e André Pestana (ordem não tem significado) são os únicos votos que eu aceito. Não existem dois fascistas/reacionários nas eleições. Pelas sondagens, vai existir uma segunda volta. Na segunda volta, temos que ser pragmáticos caso uma das opções seja André Ventura. Mesmo assim, deus me livre (secular), o André Ventura é presidente, eu acho que só existe fascismo em Portugal, se a União Europeia permitir, e que por isso o foco da luta contra o fascismo em Portugal não pode ser a luta contra o André Ventura.
Votar é dar legitimidade ao sistema capitalista. Organiza-te com os outros trabalhadores para fazeres a mudança!
Listo alguns coletivos/partidos, especialmente em Portugal que poderão ser do teu interesse (ordem não tem significado):
- Bloco de Esquerda;
- Coletivo Comunista Revolucionário (Internacional Comunista Revolucionária);
- Coletivo Ruptura;
- Asociación Internacional de los Trabajadores;
- Movimento Alternativa Socialista;
- Partido Comunista Português;
- Portal Anarquista / Colectivo Libertário de Évora;
- Brava – Rede de Resistência Rural;
- Semear o Futuro;
- STOP DESPEJOS;
- Movimento Vida Justa;
- Os Internacionalistas — Tendência Comunista Internacionalista;
- Grupo de Ação Conjunta Contra o Racismo e a Xenofobia;
- Climáximo;
- Esquerda Revolucionária;
- Sindicato de Estudantes;
- Livres e Combativas;
- Grupo de Ação Revolucionária Antifascista;
- Amnistia Internacional;
- Greve Climática Estudantil Lisboa e Greve Climática Estudantil;
- Partido Ecologista “Os Verdes”;
- Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses — Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado;
- Trabalhadores Unidos.
Os partidos normalmente podem ter uma ala para a juventude, entre outras. Mas os partidos reconhecidos ou que querem ser reconhecidos pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) enventualmente fazem parte do sistema. Não queiras defender o sistema sem te aperceberes também.