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Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras

Relembremos o Internacionalismo e a Luta de Classes

Resumo

Sobre o verdadeiro significado do Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras: da greve iniciada pelas mulheres trabalhadoras de 1917 em São Petersburgo à luta internacionalista atual contra a guerra, o patriarcado e o capitalismo.

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A liberdade não pode ser alcançada a menos que as mulheres tenham sido emancipadas de todas as formas de opressão.

— Nelson Mandela

Para quem não sabia — ou apenas para relembrar —, o dia 8 de março não começou como o “dia da mulher” (às vezes até tiram o “internacional”), mas sim, como “dia internacional das mulheres trabalhadoras”.

Foi um dia para relembrar que a luta pela emancipação das mulheres também é a luta pelo comunismo.

Esta luta foi capaz de dar às mulheres a liberdade de escolher quantas horas é que querem trabalhar e como quer ser exploradas no modo de produção capitalista. Deu o direito a licenças de maternidade e à criação de puericulturas/creches. A luta permitiu com que as mulheres conquistassem o direito ao sufrágio/voto, o direito ao trabalho, o direito de conseguir ter os mesmos cargos que os homens.

E com a luta económica de todo o proletariado (por isso, incluindo as mulheres), ofereceu melhores salários e menos carga laboral, ofereceu mais tempo de férias, etc.

Revolução de fevereiro de 1917, Rússia

Durante a Primeira Guerra Mundial, os familiares e amigos das mulheres voltavam para casa num caixão. A guerra também trouxe inflação e falta de comida.

No dia 8 de março, quase há 110 anos, na atual São Petersburgo, as trabalhadoras das fábricas de tecidos saíram à rua para festejar o mesmo dia (mas com um significado diferente do atual) que estamos a festejar hoje. Fizeram uma greve com o lema “Paz e Pão”. Jogavam bolas de neve, pedras e paulitos para as fábricas onde trabalhavam os homens, para eles se juntarem a elas. E todos (mulheres e homens) fizeram greve.

Nos dias seguintes, planearam mais greves, contra a guerra e contra o Czar; em menos de 1 semana, aconteceu uma revolução que acabou com a autocracia do Czar, implantou uma República, e criou um sistema de “dualidade de poderes” entre o Governo provisório, e os conselhos de trabalhadoras e trabalhadores (sovietes).

Passado uns meses, o poder político passou para o proletariado, que fizeram com que a Rússia saísse da guerra imperialista.

Isso permitiu com que as mulheres tivessem os mesmos poderes políticos que os homens, o divórcio foi facilitado — caso não tivessem onde ficar após um divórcio, era dado alojamento por 6 meses, que também era forma de fugir da violência doméstica se fosse o caso —, legalizaram a IVG, etc.

Foram criadas lavandarias e cantinas para as famílias, tirando as mulheres de casa.

Hoje

Hoje, a conversa sobre ter os mesmos direitos que os homens continua. Sim, mas não basta ter os direitos: é necessário dar as condições também. Os direitos dão a escolha em papel, mas as condições económicas e materiais coagem a decisão. Da mesma forma que o proletário é por força coercitiva do capitalismo obrigado a arranjar um trabalho assalariado, e a escolha entre trabalhar ou não é uma falsa escolha. E por isso a luta não deve se basear em criar condições artificiais, mas destruir o sistema que não oferece as condições (uma revolução socialista).

Isto interessa a todos. Não só porque todos vêm de mulheres e pessoas com capacidade reprodutiva feminina, e que se tivessem tido melhores condições desde a gravidez até a idade que já nos tornamos mais independentes da “mamã”, nós também teríamos melhores condições; mas também porque o patriarcado oprime e fragmenta o proletariado no geral. Essas melhores condições de que falei, estão condicionadas, porque o capital não ganha com isso. Não homens, juntamente com não brancos, não cidadãos, não heteronormativos, etc., são os que têm os trabalhos mais precários e são os mais oprimidos dentro do sistema capitalista; trabalham mais para ter menos (na melhor das situações, os mesmos) privilégios. Isto permite a criação de mais-valia para a burguesia. Opressão e divide and rule são algumas das técnicas principais que os reais causadores dos problemas usam para pôr quem está no mesmo barco um contra o outro. Não são só as mulheres que podem e devem lutar pelas mulheres. Só estamos livres quando estivermos todos livres!

Aliás, é por isso que depois da revolução de outubro, 13 países (todos, estados burgueses) invadiram a Rússia (incluindo os EUA); a contra-revolução dentro de bordas (pro-czar e pro-capitalistas) resistiam ao proletariado. Porque as mulheres eram realmente usadas (e hoje ainda são) para o trabalho mais precário, muitas vezes não pago, como o trabalho doméstico. E a emancipação das mulheres na Rússia mostrava às mulheres internacionalmente que elas podiam viver uma realidade diferente, e isso era um perigo para a burguesia internacionalmente.

Internacionalismo

Violência de género e femicídios, só tem aumentado. Em Portugal sabemos como está a situação porque a vivemos.

Há uns anos, lembro-me de ouvir que 1 em 3 mulheres no mundo todo já sofreram violência doméstica. E é quase sempre violência do homem contra a mulher, independentemente da nacionalidade, raça, etnia ou cultura (incluindo a religião) do agressor e agredida.

O patriarcado não cria exclusivamente violência contra as mulheres, mas sim violência contra tudo o que não é homem.

No Afeganistão, sob o domínio dos Talibãs, existe com um apartheid de género. Meninas e mulheres são impedidas de ter acesso à educação e trabalho. A dependência no seu próprio opressor aumenta.

A África do Sul tem a maior taxa de femicídio no mundo. Há uns meses — especialmente nos países da África Austral — as mulheres fizeram greve para dizer ao mundo que mais ou menos 15 mulheres morrem diariamente devido à violência de género, 5 vezes mais que a média global.1 A América Latina e as Caraíbas também andam pelo mesmo caminho.

Na Etiópia, com a guerra civil, os homens, soldados da Etiópia e Eritreia, decidiram aproveitar a oportunidade para praticarem mass rape, escravidão sexual, gravidez forçada e tortura sexual nas mulheres e crianças.2

Vou falar também do Irão, pelos acontecimentos da atualidade no Golfo Pérsico, que podem começar uma guerra que vá do Paquistão até ao Mar Mediterrâneo. Não é segredo que é um regime clerical e reacionário. O regime dos Aiatolas oprime as mulheres. Também não vamos esquecer que o escalonamento da situação no Irão aconteceu porque trabalhadores (condutores de autocarros e vendedores dos bazares) começaram greves e protestos, como resposta à inflação, a queda da renda petrolífera, e o descontentamento político contra os policiais e militares corruptos. A resposta foi uma repressão e violência estatal absurda com milhares de vítimas. Mas também não vai ser a volta do xá que trará o que as mulheres trabalhadoras iranianas precisam, um regime que em 1979 era predatório e sanguinário também. Não será os EUA, reacionários, que, por exemplo, recentemente recuaram no direito à IVG. Os EUA querem mais um petrostate como a Venezuela para continuar a fazer-se contra a China, e para conseguir chantagear o resto do mundo. E também não vai ser Israel, que com a ajuda dos EUA, que continua a jogar bombas na faixa de Gaza que mata também mulheres e crianças. Não vão ser eles a trazer liberdade para as mulheres iranianas.

Ao invés de utilizarem a IA para livrar as mulheres do trabalho doméstico, usam-na ao serviço das guerras e do lucro, como estamos a ver agora. Cerca de uma centena e meia de meninas foram massacradas dentro da sua escola logo que os EUA e Israel fizeram a sua intervenção imperialista no Irão. Já era de esperar já que o uso da IA em Gaza não se tem mostrado capaz de evitar estes “danos colaterais”.


A opressão das mulheres não é algo que sempre existiu, embora seja uma das formas de opressão mais antigas. Já houve uma altura em que uma pessoa não era propriedade de outra.

Pode parecer que a situação é de homens contra mulheres, e também o é; mas isso é porque os capitalistas progressistas falham em dar uma resposta que verdadeiramente liberta as mulheres, porque tentam reformar o capitalismo; e os conservadores e reacionários dizem ser a resposta, há quem acredite, e depois retrocedem essas reformas. Comunistas e anarquistas têm que se mostrar como a verdadeira resposta.

Não é por acaso que os momentos de revolução socialista foram os que mais trouxeram a liberdade às mulheres. Imagino que o PREC foi o melhor momento para se ser mulher em Portugal.

Existem cerca de 60 conflitos ativos neste momento no planeta. Temos o mundo todo a falar em rearmamento maciço, serviço militar obrigatório, e até no nuclear (Arábia Saudita e o seu acordo com o Paquistão, com o Egito e a Turquia a querer participar; a bomba europeia (Alemanha, França e o Reino Unido); o Japão; o Brasil; todos com o nuclear na boca). Todos a preparar-se para o conflito. Se a guerra chega até nós, as mulheres serão as primeiras a sofrer. Por isso é necessário organizar agora, e não nos atrasarmos e deixar para amanhã. Preparamo-nos, preparar-nos-emos e estaremos preparados! Não deixemos o trabalho artesanal nos subjugar, quando o crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento e desenvolvimento das organizações revolucionárias.3 Quando a altura chegar, temos que ser capazes de, mulheres e homens do proletariado de todo o mundo, arrancar o poder político das mãos das diferentes burguesias, e acabar com a guerra, como já foi feito na História. Contra a guerra, revolução!

Webgrafia

Footnotes

  1. https://www.theguardian.com/society/2025/nov/22/south-africa-g20-protests-gender-based-violence-national-disaster

  2. https://www.theguardian.com/global-development/2025/jul/31/mass-rape-forced-pregnancy-sexual-torture-in-tigray-ethiopian-eritrean-forces-crimes-against-humanity-report#:~:text=capital%20Mekelle%20was%20decimated,were%20raped%20during%20the%20conflict

  3. https://www.marxists.org/portugues/lenin/1902/quefazer/cap04.htm